Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"

quarta-feira, 11 de março de 2009

Morena

"A ginga da dança embriaga, enfeitiça.
Requebra, morena. Balance os quadris,
Os ombros, a cabeça. Remexe, morena,
Mexe com meus sonhos.

Morena, teus cachos são serpentes
Teu sorriso, um feitiço
Ô, morena, teus pés mal tocam o chão.

Te entregas à dança,
Mas nunca aos teus pares
Ô, morena, ninguém é dono teu.

E, na umbigada, teu corpo esguio
Quase se confunde com o meu.
Quase, morena, quase me esqueço
Que ninguém é dono teu."

terça-feira, 3 de março de 2009

Dança de salão

Nessa quadrilha furiosa que rege minha vida
Não há pausas para fôlego.

Mesmo com os ritmos se alternando do bolero à polca.
Sem choro, Maria. Sem choro nem vela.

Essa quadrilha é mascarada e me toma de assalto,
Sem tempo para ilusões dentro da ilusão.
E me afoga, me agita e eu sucumbo. Impotente, sucumbo.

Não vejo os rostos de meus pares. Não que faça alguma diferença.
Mas ouço sempre suas vozes

Sussurrando em meus ouvidos doces palavras
“...a melhor dança que tive.”

E jogo minha cabeça para trás e rio.
E finjo –é parte da coreografia– que sou de fato a única

e que são de fato meus únicos também.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A quimera

"Estou presa de novo
nessa vida tola e medíocre
nesse ostracismo sem fim.

Estou presa de novo
nesse presente ultrapassado
com essa gente tão diferente
tão diferente de mim.

Estou presa de novo
e cortam minhas asas
garantem que eu não voe.

Estou presa de novo
cansada e ferida,
mediocrizada e convencida
que esta gaiola pequena demais

foi feita para mim."


Hmmm... Aulas me torram o saco.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Ana

"Que estás fazendo, Ana?
No que estás pensando, louca?
Que estás fazendo, insana?

Que estás fazendo, Ana?
Nesta roupa pouca,
nesta festa profana?

No que estás pensando, Ana?
Dançando, sorrindo,
esta carnavália febril?

Não vês as gentes chorando, Ana?
Brigando, pedindo,
sem pátria-mãe gentil.

Pára, louca!
Pára, profana!

Me deixes em paz!
E não dances, não pules,
nas covas dos meus ancestrais!"


Esse é sobre a minha loucura. Acho que somos todos loucos de um jeito ou de outro. Me inspirei em um poema que Mario Quintana fez sobre a dele e fiz esse aí sobre a minha. Dei um nome à ela, Ana.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Usura

"O que aconteceu?
O que eu quero?
Não sei. Não sei nada.

O que me falta?
Cadê você?
[Quem é você?

Cadê você,
com seu perfume, sua voz?
Cadê você?
Você, que comprou meu passado
[e roubou nosso futuro?

Cadê?
Você, que recolheu minhas lágrimas
e suas promessas numa ampola
e prometeu guardar como amuleto?

A porta do céu custa só uma moeda."



Esse poema foi feito para uma pessoa, mas acho que o postei por culpa de outra. Quem vai saber?

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Brasil

Nenhuma terra me pertence
Como poderiam, os rios, as montanhas
"ser" de alguém?
Pertencer, pertenço eu a esta terra.
Com minhas cores, meus tons,
criados à sua imagem e semelhança.
Minha terra não é Rio, mata,
São Paulo ou Salvador.
Minha terra, que me gerou e vai me engolir,
tem o nome vermelho do sangue derramado
por toda ela.
essa terra de nome dos restos do fogo
Brasail
Brasil

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Gelo

As pessoas não me completam.
Não me derretem.

Me sinto um cubo de gelo,
de longe sou fria, compacta.

Mas é só se aproximar
e verá como eu sou cheia de vazios,

como eu sou frágil,
como posso queimar.

Eu mesma não me preencho,
não me basto.

Sinto falta do que eu não fui.
Sinto falta do que eu não tive.

Sinto falta de um passado que não existiu.

Porque não existem fotos dele.
Porque não existem relatos dele.

É como se o “eu” no qual sempre acreditei
fosse meus vazios.

Acho que, como o tal gelo, sou desagradável.
Em um primeiro momento, refresco,
te dou algum prazer.

Mas então, quando estou derretida, quando estou plena,
começo a queimar ou a ser inútil.

Inútil...

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A menina-mar

Mordeu-lhe.
E, naquele corpo-água fugidio,
parecia abrigar-se todo o sal do mundo.

A pele branco-dourada
da mais fina
áspera e suave areia
penetrava-lhe os poros.

Os olhos eram de um
furta-cor indizível.
(Seriam verdes? Não. Azuis.)

E uma tristeza de oceanos possuía-lhe,
tornando-os em matizes de cinza.

Uma tristeza muda,
inexistente. Persistindo nos ouvidos
no mesmo eterno ruído surdo.

Amar-lhe era para si um banho de mar.
Pois era ela mesma a idílica prosopopéia das águas de sal.

Em seu auto-contimento sôfrego,
mergulhar-lhe era dar-se, apenas.

Por vezes, num gesto de benevolência,
sobrava-lhe somente o terno gosto de sal.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Retalhos V

"Nos cercamos de coisas mortas.

Nos cercamos de coisas mortas porque tememos as vivas.

As vivas um dia morrem.

E aí há o abandono."


Mostrei este poema a meu professor de yoga e ele redigiu uma resposta a este.
Porém, a resposta pertence a ele e não me sinto no direito de publicá-la aqui.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Retalho I

"A angústia sobe em ondas
como um monstro pegajoso
subindo pelo abismo que eu temo
[o meu abismo, a minha alma.

A angústia vem misturada com a náusea
e com as lágrimas secas que fazem força para escorrer.

Mas que angústia é essa, Maria?
A angústia da saudade de algo
que perdi há tanto tempo que nem mais sei o que é.

Que tortura é essa?
Que medo do monstro que já afugentei?

Guio minha criança até o armário
e lhe mostro que as bestas que teme,
uma vez na luz, simplesmente não existem.

A criança choraminga e me assusta:
vejo que a matei, pois sua realidade eram os monstros
e ela, – que tristeza, Maria – ela era eu."

Um poema um pouco mais recente, mas não tão recente assim.