Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Retalhos VI

Os dedos etéreos dos fantasmas,
aveludados, mexem em meus cabelos
e deixam marcas de fogo pela minha pele.

Gosto dos seus murmúrios
que assumem a forma de vento
e vão de encontro às árvores, me embalando.

“Vós, que sois o último vestígio de meus ancestrais,
guardai este corpo, último receptáculo de vossa semente.”
O meu corpo.

E, de noite, quando finda minha cegueira,
vejo seus rostos e ouço claramente suas vozes.
“Ide,” dizem “lança-te ao desconhecido e abraça teu destino.”

E me assusto, pois sinto o fio das Moiras
a apertar minha traquéia.
Os fantasmas sorriem e me puxam.

Acordo como criança tonta
a agarrar o ar noturno.

--

Antiigoo...

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Num canto da pista

Não sei amar comedida, amar pela metade.
Não sei amar calma, desprendida.
Desconheço esse amor respeitável.

Se amo, amo mesmo. Talvez demais até.
Me jogo, me entrego, me confesso.
É um turbilhão louco, por vezes constrangedor.

Até hoje, mambembe e solitário.
Amei nesta curta vida em desacordo
E descompasso dos amados.

“Não te acompanho”
Não te acompanho, coração idiota.

Danço sozinha, quase sempre.
Não sei minuetos não sei quadrilhas não sei sambas.
Eu só não sei.

E vou dançando de olhos semi-cerrados,
Fingindo que nem ligo,
Fingindo que sei o que estou fazendo.
Fingindo que não dói.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Súplica

"Se você me pedisse, mesmo que se arrependesse depois, apenas peça. Engula o orgulho e peça. E eu vou com você. Não importa para onde. Não importa nada. Apenas permita que eu roce minha pele contra a sua de vez em quando. Que eu fique calada, ouvindo o som da sua respiração, da sua existência. Peça e eu esqueço que existe um mundo lá fora. Não precisamos ir além da porta do quarto nunca mais. Nunca, nunca mais.

Se você me dissesse, ainda que apenas houvesse escapado de seus lábios, ainda que as palavras não fossem suas. Se você apenas descesse do pedestal por um instante. E lembrasse de mim, eu chorava. Eu ria. Eu virava outra pessoa. E não peço nada em troca. Apenas permita que eu fique olhando seus desenhos de vez em quando. O contorno do seu rosto, apenas permita que eu exista ao seu redor.

Se você apenas permitisse que eu fosse real por um minuto. Que eu pudesse abandonar o palco, pudesse abandonar as mentiras e as lágrimas contidas. Se você apenas dissesse uma palavra só. Talvez três, não peço mais do que isso. Não me importaria nunca com o que pensam os outros e nem mais ousaria pensar. Eu me colaria ao seu corpo para o resto da nossa inútil existência. E juntos o mundo seria menos frio. Apenas me permita ser..."

2009

terça-feira, 22 de junho de 2010

(Des)Equilíbrio II

Nossos números privados suplantam os antigos bailes.
Nem me olhas diante dos outros cortesãos
E as Condessas principiam a acreditar que nunca valsamos.

Miro-te com intensidade e nos irritamos.
Dizes que não queres jogos,
Então por que me escondes?

Amo-te, amo-te e queria que minhas cobranças
Fossem menos severas. Mas sigo sendo uma bruxa
E bruxas são cruéis.

Me arrastas sempre à floresta
E tuas garras violam meus segredos,
Mas mal me diriges a palavra.

Em momentos assim, restam os antigos fantasmas...

sábado, 1 de maio de 2010

A torre de mármore

"Quando cheguei atrasada à torre e descobri as tranças que a Princesa deixara para trás ao fugir com Cyrano de Bergerac, desesperei-me.
Arranquei-as da janela e me recolhi ao choro.
Quando inundei os campos e as vilas com meu rancor e deixei o solo infértil, as lágrimas secaram com as plantas.
E então me inclinei à janela e descobri as delícias de observar o mundo de um pedestal. Sem Príncipes, Cyranos, Narcisos ou Abismos.
Apenas as visitas eventuais de Ícaros, dos doces Pássaros da Noite tão sozinhos quanto eu.
Quando percebo que meu coração estúpido começa a ensaiar um Carnaval fora de época, troco o alpiste por chumbinho e fico sozinha novamente.
Melhor assim. Não devo esquecer que sou uma Bruxa e que assusto. Não devo esquecer que sempre haverá Princesas que usam gaiolas em vez de alpiste.
Não devo esquecer que estou em uma torre e, se me inclinar demais, será um longo caminho até o chão."

Esse texto é a origem de todos os textos envolvendo Cortes e Torres, para os que queriam saber.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Asfixia

Voltas para mim
em forma de sonho perverso,
perturbando minha noite com lembranças
de murmúrios do vento e tinta branca.

Sou comprimida por uma tecido quase roxo,
sujo de manchas. Estás ao meu lado
e podes me salvar do sufocamento,
mas percebo que é a utopia das tuas
mãos que me assassina.

Tão cruéis quanto o pano e as mãos,
teus olhos me perguntam
“sentes falta das aulas de dança?”

Sinto. Dançar sozinha não é mais
a mesma coisa desde tuas mãos e
tua máscara. Ainda quero arrancá-la.

Mas não te responderei, pois sei
que sorrirás em escárnio e abandonarás
o leito móvel sobre o qual estamos.

Prefiro ter tua crueldade a
não ter nem mesmo este sadismo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

No centro do nada

Eu tremia horrores e acho que você notou. Deve ser porque eu não tenho o Tato.

Depois de dias e semanas caminhando sobre brasas e nadando em geleiras, cheguei ao objetivo: o centro do nada.

Lá, fincada como uma bandeira de posse, estava a imagem de um deus que não é o nosso.

"Quem colocou isso aqui?" E só a simples ideia de alguém chegando antes de nós a um lugar que acreditávamos não existir me encheu de medo.

Creio que foi por isso que meus músculos ficaram tesos e meus pelos se arrepiaram. Olhei para você, esperando ouvir uma palavra de sobriedade.

Seu rosto estava todo molhado. Olhei para a abóbada sobre nós. Nenhum sinal de goteiras. Olhei para o chão a meus pés e vi marcas de pingos ao meu redor. Eu vazava água também.

Olhei de novo para o totem gasto de algum povo dilacerado como nós (se não o eram, o que faziam naquele lugar?) e tive a impressão de algo comprimido em meu tórax, onde deveria ficar meu coração se eu tivesse um.

Vim aqui buscar você, levar de volta para suas feras, para o povo que você deixou para trás.

E me escolheram entre os seus órfãos por eu ser oco e irredutível. Mas essa estátua de um material que eu não conheço me enfeitiçou e agora me sento ao seu lado para olhá-la e vazar até que só reste pó do que eu fui.

Sinto sede e provo de sua água. As gotas têm o sabor do oceano infindo que tive de cruzar para chegar ao nosso destino. Olho para o seu rosto (agora, mais vazio do que o meu) e me pergunto se esse travor vem de seu âmago ou é só mais um feitiço do estranho ídolo.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Trama

Desde que posso me lembrar, mamãe me alerta
quanto aos homens-aracnídeos. São muito sedutores, ela diz,
porém, é quase impossível escapar de suas teias.

Eles chegam de mansinho e elogiam sua beleza,
(ninguém nunca tinha me elogiado antes,
afinal, eu sou só preta e amarela, como qualquer outra operária)

te convencem a não trabalhar, te apresentam seus amigos cigarras
e, quando finalmente perceber, estará toda grudada em sua teia.
Mesmo que seu novo dono (porque você se tornou apenas uma escrava)

injete veneno em sua corrente sanguínea,
você não terá como escapar. Porque, depois do veneno é melhor ainda.
E você quer, mas não quer (e não sabe como) escapar.

Quer se livrar dele, porque já vê como tudo terminará,
mas teme como serão os dias sozinha.
E ele te deixa voltar para a colmeia,

e você, crédula, acha que isso é amor.
No fundo, ele apenas quer que você perceba que as outras te olham diferente
todos já apontam e sussurram por suas costas

dizendo: "Lá vai a futura refeição da aranha"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Bruxos

O corvo, que as Princesas juravam ser um rouxinol, continuou a visitar Morgana todas as noites. A bruxa, assustada com o súbito afeto morno, não teve coragem de trocar o alpiste por chumbinho. Assim, a janela da torre permaneceu aberta.

A cada noite, Morgana enxergava mais e mais o bruxo encantado, oculto sob as penas. E sentia mais frio quando ele alçava voo.
Chegou à conclusão de que bemqueria suas penas negras, bemqueria sua existência.
E ousou descer da torre, se misturar aos aldeões. Não entendia por que as donzelas olhavam com cobiça para o bruxo ao seu lado. Porque, por mais que Morgana estudasse o rosto sério de Merlin, via apenas o seu excorvo.

Mas, quando caía a penumbra, a bruxa voltava para sua fortaleza marmórea. Passava dias trancada e Merlin virava corvo de noite, voava até o poleiro e se queixava. Normalmente, quando Morgana enjoava de seu grasnar, fechava o vidro. Mas nunca, nunca conseguia por chumbinho.

Merlin queria que ela abandonasse a torre e passasse a se abrigar nele, mas Morgana tinha tanto medo...
Tinha medo de se debruçar demais e cair e medo de tornar-se desabrigada quando Merlin se cansasse dela. Ou ela dele.

Porque bruxos são assim, medrosos, Morgana decidia-se: ia até o fundo de seu quarto e corria à janela. Parava no parapeito.
Como saber que ia virar realmente mais um pássaro?

Merlin tinha que entender que ela nunca seria uma princesa.

Ausências

Me dói pensar em minhas falhas e meus vazios. Me dói lembrar de minha finitude.
Minhas ausências são como salas abandonadas de uma mansão em pedaços.
Passo minhas mãos por seus papéis de parede descascados e aspiro seu cheiro de mofo. Então, vem de dentro uma melancolia aguda, uma saudade do que não tive e do que não aconteceu.
Corro a medo, maldizendo suas correntes de ar e ressaltando o pó que cobre tudo.
Evito os cômodos por semanas, preferindo o calor dos jardins, mas de um jeito ou outro, volto a cruzar os corredores destelhados e buscar algo que esqueci naquelas salas.
“Não, não é possível. Não havia tanto pó assim...”

Ah, as ausências...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A bruxa e o corvo

Até o momento, sustentei a firme crença
de que minha torre era o melhor lugar do mundo

Para observar os povos abaixo
e as estrelas acima de mim.

Mas um corvo ignóbil,
sem canto doce ou plumas macias
veio até minha janela sem barras

(As princesas nunca acharam necessário prender-me de vez na torre,
considerando que nunca desfrutei da companhia delas ou me queixei de nada)

e tornou-se uma companhia das noites solitárias.
Mostrei-lhe meus mapas celestes e minhas poções,

divertindo-me com a companhia de um pássaro noturno
que, achava eu, nada queria de mim.

Tola fui ao não notar que o corvo era um bruxo que nem eu.
Tola não, estúpida.

E este bruxo encantou-me, prendendo-me em um estado ilógico.
Será apenas a solidão da torre? me indago.

Tem de ser a solidão da torre que me faz sentir assim.
Do contrário, por que me encantaria eu pelo corvo?

Sei que sou cleptomaníaca, mas não é possível
que minha obsessão chegue ao ponto de meras esmeraldas fazerem tal estrago.

Minhas forças se esvaem e minhas colegas bruxas
(incluindo na conta umas duas fadas e outras tantas princesas)
se riem de mim com a mesma velocidade que tentam me acordar.


Eu quero acordar!
Não é são gostar de taquicardia ou enjoos!

O corvo grasna, indiferente ao meu estado.
Fez ele de propósito ou estava tão sozinho quanto eu?

Não importa, busco a garrafa de vinho na adega
e me preparo para mais uma noite ilógica.

sábado, 23 de maio de 2009

Filhos de Gaia

"Sou filha da terra. Louca.
Louca de paixão pelo mar.
Nadar não sei,
minhas raízes nunca permitiriam.

Seguia fincada no chão,
com medo do que aconteceria
caso me arrancasse de minha cela.

Imersa em água,
meus galhos e folhas apodrecem.
Estou mutando.

Morrendo como me conhecia.
Recebo com a paciência que desenvolvemos
minha nova condição.

Saímos, livres,
do invólucro com o qual nos acostumamos.
A liberdade e o sal agridem nossos olhos.

Quem diria que os cadáveres de nossos irmãos
nos ajudariam a boiar?"

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Para Gabriela I

O teu pesinho morno aqueceu meu coração gelado.
Ainda és tão pequena! Tão pequena e depósito de tantas esperanças!
O nome que te deram é o mesmo do Anjo da Anunciação.
Ai, anjinho, minhas asas tão quebradas não protegem nem a mim.
Quem és tu? –Me pergunto. Como podemos ser tão idiotas
e entregar nossos corações às mãos de um estranho?
Gabriela, meus sentimentos infundados transbordam no papel.
Eu queria que transbordassem em lágrimas,
mas essas já secaram há muito tempo.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A quimera

"Estou presa de novo
nessa vida tola e medíocre
nesse ostracismo sem fim.

Estou presa de novo
nesse presente ultrapassado
com essa gente tão diferente
tão diferente de mim.

Estou presa de novo
e cortam minhas asas
garantem que eu não voe.

Estou presa de novo
cansada e ferida,
mediocrizada e convencida
que esta gaiola pequena demais

foi feita para mim."


Hmmm... Aulas me torram o saco.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Gelo

As pessoas não me completam.
Não me derretem.

Me sinto um cubo de gelo,
de longe sou fria, compacta.

Mas é só se aproximar
e verá como eu sou cheia de vazios,

como eu sou frágil,
como posso queimar.

Eu mesma não me preencho,
não me basto.

Sinto falta do que eu não fui.
Sinto falta do que eu não tive.

Sinto falta de um passado que não existiu.

Porque não existem fotos dele.
Porque não existem relatos dele.

É como se o “eu” no qual sempre acreditei
fosse meus vazios.

Acho que, como o tal gelo, sou desagradável.
Em um primeiro momento, refresco,
te dou algum prazer.

Mas então, quando estou derretida, quando estou plena,
começo a queimar ou a ser inútil.

Inútil...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Retalhos V

"Nos cercamos de coisas mortas.

Nos cercamos de coisas mortas porque tememos as vivas.

As vivas um dia morrem.

E aí há o abandono."


Mostrei este poema a meu professor de yoga e ele redigiu uma resposta a este.
Porém, a resposta pertence a ele e não me sinto no direito de publicá-la aqui.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Retalho I

"A angústia sobe em ondas
como um monstro pegajoso
subindo pelo abismo que eu temo
[o meu abismo, a minha alma.

A angústia vem misturada com a náusea
e com as lágrimas secas que fazem força para escorrer.

Mas que angústia é essa, Maria?
A angústia da saudade de algo
que perdi há tanto tempo que nem mais sei o que é.

Que tortura é essa?
Que medo do monstro que já afugentei?

Guio minha criança até o armário
e lhe mostro que as bestas que teme,
uma vez na luz, simplesmente não existem.

A criança choraminga e me assusta:
vejo que a matei, pois sua realidade eram os monstros
e ela, – que tristeza, Maria – ela era eu."

Um poema um pouco mais recente, mas não tão recente assim.