Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"
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terça-feira, 22 de junho de 2010

(Des)Equilíbrio II

Nossos números privados suplantam os antigos bailes.
Nem me olhas diante dos outros cortesãos
E as Condessas principiam a acreditar que nunca valsamos.

Miro-te com intensidade e nos irritamos.
Dizes que não queres jogos,
Então por que me escondes?

Amo-te, amo-te e queria que minhas cobranças
Fossem menos severas. Mas sigo sendo uma bruxa
E bruxas são cruéis.

Me arrastas sempre à floresta
E tuas garras violam meus segredos,
Mas mal me diriges a palavra.

Em momentos assim, restam os antigos fantasmas...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Passos

De fato, uma vez removida a máscara,
teus abismos se aquecem e me encontro
tranquila de olhar-te nos olhos.

Quando dançamos nosso número particular,
títulos e categorias desaparecem.

Torno-me o mais perto e o mais distante de uma princesa.
Ou não me torno nada?
Não sei e não importa, apenas me gire de novo.

A caçada

Risadas dos cortesãos
e pegadas na grama.

O “gato-mia” da Corte corre solto
e salto troncos caídos para escapar.

(Finalmente alguma vantagem esta roupa de ninfa me deu.)

Me encosto contra o musgo de uma árvore,
buscando proteção. O cetim arranha minha pele graças à respiração rasa.
-Graças à corrida.

E então surges sabe-se lá de onde. Não me movo,
se é para ser capturada que seja por ti.

Incrível! Mesmo o cetim me incomoda,
mas tu não dá mostras de estar embaraçado no veludo.

Se eu respirava rápido antes, agora o coração falhou uma batida.
Teus abismos! Teus abismos precedem as doces garras cruéis!

Espero o toque que, malicioso, adias.
Fecho os olhos com um suspiro e,

por fim, arrancas nossas máscaras.
Explosão! Agora sim as festas da Corte são divertidas.

Brechas

Dançamos, por fim.

De início pensei que fosse apenas mais um ensaio,
mas então não afastaste minha mão quando tentei tocar tua máscara.

(O veludo era ainda mais suave do que aparentava)

Arrancamos-la. E meu medo de perceberes
minha ausência de ritmo perdeu o sentido.

Tudo perdeu o sentido ao dançarmos
pele contra pele, mais suave que meu cetim e teu veludo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Asfixia

Voltas para mim
em forma de sonho perverso,
perturbando minha noite com lembranças
de murmúrios do vento e tinta branca.

Sou comprimida por uma tecido quase roxo,
sujo de manchas. Estás ao meu lado
e podes me salvar do sufocamento,
mas percebo que é a utopia das tuas
mãos que me assassina.

Tão cruéis quanto o pano e as mãos,
teus olhos me perguntam
“sentes falta das aulas de dança?”

Sinto. Dançar sozinha não é mais
a mesma coisa desde tuas mãos e
tua máscara. Ainda quero arrancá-la.

Mas não te responderei, pois sei
que sorrirás em escárnio e abandonarás
o leito móvel sobre o qual estamos.

Prefiro ter tua crueldade a
não ter nem mesmo este sadismo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ensaios

"Não ganhei uma torre, mas ofereceram-me uma cama
junto aos outros cortesãos. Observo-te dormir
em meus sonhos, pois na realidade há dosseis

que protegem teu rosto. Sinto que estou ficando
doente de novo e, juntos, ensaiamos alguns passos.
Nossas mãos se tocam e se afastam e eu sinto um calor

que nada tem a ver com meu pesado vestido.
Quero tocar tua máscara veneziense e sentir o veludo,
quero arrancá-la e quero que teus abismos

busquem somente a mim. Tocam e se afastam.
Quero colar meu tronco no teu e sentir tua pele.
A música acaba e enroscas um cacho de minha peruca em teus dedos.

Beija-a e te afastas. Fico parada no salão,

Morgana, sentes que vais desmaiar..."



Esse poema e os dois últimos fazem parte de uma série que sabe-se lá quando vai acabar.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Bruxos

O corvo, que as Princesas juravam ser um rouxinol, continuou a visitar Morgana todas as noites. A bruxa, assustada com o súbito afeto morno, não teve coragem de trocar o alpiste por chumbinho. Assim, a janela da torre permaneceu aberta.

A cada noite, Morgana enxergava mais e mais o bruxo encantado, oculto sob as penas. E sentia mais frio quando ele alçava voo.
Chegou à conclusão de que bemqueria suas penas negras, bemqueria sua existência.
E ousou descer da torre, se misturar aos aldeões. Não entendia por que as donzelas olhavam com cobiça para o bruxo ao seu lado. Porque, por mais que Morgana estudasse o rosto sério de Merlin, via apenas o seu excorvo.

Mas, quando caía a penumbra, a bruxa voltava para sua fortaleza marmórea. Passava dias trancada e Merlin virava corvo de noite, voava até o poleiro e se queixava. Normalmente, quando Morgana enjoava de seu grasnar, fechava o vidro. Mas nunca, nunca conseguia por chumbinho.

Merlin queria que ela abandonasse a torre e passasse a se abrigar nele, mas Morgana tinha tanto medo...
Tinha medo de se debruçar demais e cair e medo de tornar-se desabrigada quando Merlin se cansasse dela. Ou ela dele.

Porque bruxos são assim, medrosos, Morgana decidia-se: ia até o fundo de seu quarto e corria à janela. Parava no parapeito.
Como saber que ia virar realmente mais um pássaro?

Merlin tinha que entender que ela nunca seria uma princesa.

domingo, 5 de julho de 2009

Mascarados

"Quem és tu, se retirarmos tua máscara?" Pergunta-me
"Nada sou - te responderei - pois sou eu a máscara, sou eu o palco.
Denegri-me para que tu me amasses, porém não amas a máscara. Não amas quem realmente sou"
Vendi novamente minha alma por olhos que nunca buscaram os meus. Deuses! não aprendo com meus erros?
"Talvez ames o que me tornei agora, porém nunca descestes ao salão de baile, não é mesmo?
Imbecil! máscaras são por lá traje obrigatório!
Pare com isto! Não ouse tentar arrumar os cacos!
Quebrei-a! não te fez feliz no momento?
Quebrei-a e não sei usá-la mais."
E eu, que trajava as mais belas fantasias, cuja máscara era elogiada e invejada, me fiz em farrapos para igualar nossas vestes.
Estás feliz agora, Alice? ao mirar a porcelana despedaçada?