Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Retalhos VI

Os dedos etéreos dos fantasmas,
aveludados, mexem em meus cabelos
e deixam marcas de fogo pela minha pele.

Gosto dos seus murmúrios
que assumem a forma de vento
e vão de encontro às árvores, me embalando.

“Vós, que sois o último vestígio de meus ancestrais,
guardai este corpo, último receptáculo de vossa semente.”
O meu corpo.

E, de noite, quando finda minha cegueira,
vejo seus rostos e ouço claramente suas vozes.
“Ide,” dizem “lança-te ao desconhecido e abraça teu destino.”

E me assusto, pois sinto o fio das Moiras
a apertar minha traquéia.
Os fantasmas sorriem e me puxam.

Acordo como criança tonta
a agarrar o ar noturno.

--

Antiigoo...

Astronomia

O Sol reduziu de tamanho
E a Terra sentiu.

Às vezes penso que parei,
Às vezes percebo que ainda estou presa em sua órbita.

Plutão não é mais planeta,
Eu ainda sou um satélite?

Quero dançar a valsa de outros astros,
Mas seu campo magnético ainda me prende.

Não há mais marés ou fases lunares entre nós.
Só as crateras que os meteoros deixaram em mim.

sábado, 15 de maio de 2010

A tola neve

"A dança das flamas cega meus olhos
insistentes, que não se desviam da fogueira.
Posso eu, o Inverno, abraçar as brasas?

Menina filha da neve, com um fogo ardente no peito,
teu hálito alimenta a combustão, desfazendo-te.
Te derretes pouco a pouco, tentando alimentar teu assassino.

Todos os filhos do frio têm uma pedra de gelo como coração,
por que quiseras tu ser diferente, sabendo que morrerias?
Sofro por ti, mas nada posso fazer.

Com a minha chegada, teus irmãos se vão.
Menos tu, que lutas contra esse fluxo de lágrimas
que estás te tornando.

Não posso apagar-me por ti, não posso, criança.
Por mais que me esconda atrás de morros,
o Tempo e os cânticos dos povos me chamam.

Vou matando teus pares um a um
e te vejo perecer sorrindo, estás feliz com meu calor.
Suspiro. Por que, tola, por que foste te apaixonar
pelo Sol da Primavera?"


O "Poema Sazonal" me fez lembrar desse.
Pronto, postei.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Asfixia

Voltas para mim
em forma de sonho perverso,
perturbando minha noite com lembranças
de murmúrios do vento e tinta branca.

Sou comprimida por uma tecido quase roxo,
sujo de manchas. Estás ao meu lado
e podes me salvar do sufocamento,
mas percebo que é a utopia das tuas
mãos que me assassina.

Tão cruéis quanto o pano e as mãos,
teus olhos me perguntam
“sentes falta das aulas de dança?”

Sinto. Dançar sozinha não é mais
a mesma coisa desde tuas mãos e
tua máscara. Ainda quero arrancá-la.

Mas não te responderei, pois sei
que sorrirás em escárnio e abandonarás
o leito móvel sobre o qual estamos.

Prefiro ter tua crueldade a
não ter nem mesmo este sadismo.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ausências

Me dói pensar em minhas falhas e meus vazios. Me dói lembrar de minha finitude.
Minhas ausências são como salas abandonadas de uma mansão em pedaços.
Passo minhas mãos por seus papéis de parede descascados e aspiro seu cheiro de mofo. Então, vem de dentro uma melancolia aguda, uma saudade do que não tive e do que não aconteceu.
Corro a medo, maldizendo suas correntes de ar e ressaltando o pó que cobre tudo.
Evito os cômodos por semanas, preferindo o calor dos jardins, mas de um jeito ou outro, volto a cruzar os corredores destelhados e buscar algo que esqueci naquelas salas.
“Não, não é possível. Não havia tanto pó assim...”

Ah, as ausências...

sábado, 23 de maio de 2009

Filhos de Gaia

"Sou filha da terra. Louca.
Louca de paixão pelo mar.
Nadar não sei,
minhas raízes nunca permitiriam.

Seguia fincada no chão,
com medo do que aconteceria
caso me arrancasse de minha cela.

Imersa em água,
meus galhos e folhas apodrecem.
Estou mutando.

Morrendo como me conhecia.
Recebo com a paciência que desenvolvemos
minha nova condição.

Saímos, livres,
do invólucro com o qual nos acostumamos.
A liberdade e o sal agridem nossos olhos.

Quem diria que os cadáveres de nossos irmãos
nos ajudariam a boiar?"

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Retalhos V

"Nos cercamos de coisas mortas.

Nos cercamos de coisas mortas porque tememos as vivas.

As vivas um dia morrem.

E aí há o abandono."


Mostrei este poema a meu professor de yoga e ele redigiu uma resposta a este.
Porém, a resposta pertence a ele e não me sinto no direito de publicá-la aqui.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Caixinha de Música

O barulho dos tanques aumentava à medida que se aproximavam.
-Eu tô com tanto medo... -Sussurrou seu pequeno irmãozinho, grudando ainda mais o corpo no dela.
Engoliu o medo e deu um sorriso para fortalecê-lo. Havia prometido à sua mãe que iria cuidar do pequeno.
-Não precisa. Está ouvindo esse barulho? -Disse, afagando sua cabeça.
Ele fez que sim com a cabeça.
-São as portas do céu se abrindo... -Começou.
Olhou para o céu cinzento, sabia que era mentira. Sabia também que seria a sua última mentira.
O pequenino se afastou um pouco, indignado.
-Não é não. São os tanques maus vindo pegar a gente. -Reclamou.
Ela o apertou contra si, com medo.
-Sim. Mas há um outro barulho. Aquela música que a mamãe sempre canta... -E, como mágica, a música começou a soar.
O menino, maravilhado, sorriu.
-A mamãe está de braços abertos naquele vestido azul de dia de festa. E o papai está com aquela farda bonita...
A música suave embalava a criança.
-Atrás deles, estão tantos e tantos anjos...
-Mas não são os anjos que cantam no céu? -Perguntou meio sonolento.
Ela fechou os olhos e deixou pequenas lágrimas rolarem pelo rosto.
-São, mas...você nunca percebeu? –Perguntou, fingindo surpresa.
-O quê? -A curiosidade tentava vencer o cansaço de dias acordado.
-A mamãe sempre foi um anjo. -Sussurrou na pequena orelha pálida do irmão aquele segredo, tão secreto, que era quase pecado ser dito em voz alta.
-Eu sempre soube... -Foram as últimas palavras dele antes de dormir.



Dias depois, participantes da Cruz Vermelha vasculhavam os destroços de um abrigo.
Descobriram os corpos de duas crianças. Abraçadas, dormiam sorrindo o sono eterno da morte.

Ao fundo havia uma música insistente. Descobriram, apertada na mão da menina, uma pequena caixinha de música.



Eu gosto um bocado desse conto, é fofinho. Antigo...
Hoje foi um dia traquilo, sem nada demais.
Fui na médica, comecei a escrever o roteiro para uma peça... Nada demais.
Ah sim, tem o poema novo. Mas esse eu só vou publicar depois da peça ser encenada!

domingo, 13 de abril de 2008

Coroa fúnebre

E ela dirigia sem saber muito bem para onde queria ir. Onde queria chegar.
Sabia apenas de onde queria fugir.
Queria fugir dele. De como ele evidenciava o quão vazia sua vida se tornara. De como ele evidenciava a sua incapacidade, sua inutilidade.
Queria fugir dos outros, que riam dela junto com ele e o seu riso de escárnio que usava para tudo.
A tristeza e o cansaço embotavam os seus sentidos, mas ela ainda podia ver a estrada, então, tudo estava bem. Mesmo com os sentidos desativando-se, pode ver o ônibus. E então, não mais as coisas ficariam bem.
Talvez.

O carro se tornara uma lataria minúscula e havia vários rastros de sangue no asfalto negro. Ainda podia se ver restos do que um dia fora uma coroa de flores.
De baixo do lençol que escondia o corpo parcialmente queimado das pessoas frias, as rendas negras escapavam para bailar com o mesmo vento que espalhara as chamas pelo automóvel, mas que não a acordara.
Talvez tivesse sido melhor assim, se ela acordasse, gritaria de dor e medo. Mas então lembraria que nunca mais faria falta alguém e voltaria a dormir.

Vários curiosos se aglomeraram para ver o que ocorrera. Não que alguém efetivamente se importasse com ela, ninguém o fazia. Queriam apenas ver o sangue e a dor dos outros para esquecer as suas dores.
A buzina que tocou por conta da cabeça jogada sobre o volante foi a única coisa que fez as pessoas perceberem que havia alguém no carro. Uma mulher. Nova, bonita, esmagando um pequeno lencinho de pano em uma das mãos.

No necrotério, um homem se aproximara do corpo para reconhecê-lo. Ao ver a mão apertada que ninguém conseguira abrir, reconheceu naqueles cacos a mulher que ele secreta e covardemente admirara e adorara por anos a fio. Mas ele não choraria nunca, era covarde demais até para isso.
Discretamente, forçou a mão e pegou o lenço que ali estava apertado. Ele deu um sorriso ao reconhecê-lo como seu. O sorriso era apenas uma sombra daquele que enlouquecia ela, mas ainda era possível vislumbrar naquilo o homem que ele sempre fora.
Saindo do hospital, lamentou baixinho que os dois fossem tão covardes e as coisas tivessem de ter sido assim.