Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"
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sexta-feira, 2 de julho de 2010

Súplica

"Se você me pedisse, mesmo que se arrependesse depois, apenas peça. Engula o orgulho e peça. E eu vou com você. Não importa para onde. Não importa nada. Apenas permita que eu roce minha pele contra a sua de vez em quando. Que eu fique calada, ouvindo o som da sua respiração, da sua existência. Peça e eu esqueço que existe um mundo lá fora. Não precisamos ir além da porta do quarto nunca mais. Nunca, nunca mais.

Se você me dissesse, ainda que apenas houvesse escapado de seus lábios, ainda que as palavras não fossem suas. Se você apenas descesse do pedestal por um instante. E lembrasse de mim, eu chorava. Eu ria. Eu virava outra pessoa. E não peço nada em troca. Apenas permita que eu fique olhando seus desenhos de vez em quando. O contorno do seu rosto, apenas permita que eu exista ao seu redor.

Se você apenas permitisse que eu fosse real por um minuto. Que eu pudesse abandonar o palco, pudesse abandonar as mentiras e as lágrimas contidas. Se você apenas dissesse uma palavra só. Talvez três, não peço mais do que isso. Não me importaria nunca com o que pensam os outros e nem mais ousaria pensar. Eu me colaria ao seu corpo para o resto da nossa inútil existência. E juntos o mundo seria menos frio. Apenas me permita ser..."

2009

terça-feira, 22 de junho de 2010

Cristalização

Por acaso tens ideia do tamanho do buraco
Que se abriu quando a latência do gelo desfez-se?

Passou o inverno tropical (ou era o verão nórdico, no fim?)
E a parede tornou-se espessa e sólida.

Estou presa dentro do lago gélido.
Os ventos cessaram...

Acabou a primavera
E meu hálito morno inexiste,

Pois me afogo em golfadas de água semicongelada.
A água possui farpas que se fixam em meus órgãos.

Chamo-as de Fobos e Deimos.
Terias mentido em algum momento?

Terias sido leviano?
Por que retiraste minha máscara?

Por que tocaste em mim?

Há manchas de meus crimes por todo o meu corpo
E nem toda a água do mundo as fará desaparecer.

sábado, 22 de maio de 2010

Fusão

As primeiras gotas começaram a escorrer.
O simples fato de minhas mãos estarem (dormentes e)
prensadas no gelo fê-lo derreter-se

e mal pude, então, ocultar os arrepios
que me tomavam de assalto.
Tu estavas de volta para mim.

(Só para mim, me iludo)

Como os ventos invernais, tentas escapar
ao mesmo tempo em que trocamos carícias.
Mas tenho comigo a brisa primaveril

que, transfiguração de meu hálito morno,
impõe o afeto tácito entre nós.
Afeto esse que suplantou o medo que eu tinha do frio.

As gotas formam poças
e nas poças há grama.
Fico feliz, o gelo está partindo

e não importa se o que vem é a primavera nórdica
ou o inverno tropical. O que importa é que já posso ouvir
as Quatro Estações tocando.

Dança comigo de novo?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Poema Sazonal

Tenho os braços frouxos, pendentes.
Esta flacidez deve-se à tua ausência.

Não paro de sonhar. Não contigo.
Me afogo em um lago gelado
e te vejo. Não te culpo.

Tinhas alertado-me a respeito da finura do gelo.
Do nosso gelo.
Não era de verão nosso affaire,

Era de gelo.
De gelo e minha primavera quebrou tudo.

Eu sou a primavera tropical.
Creio que comecei a derreter-te
e tu és o inverno nórdico. (Não havia como aguentares)

Te sinto agora atrás de uma grossa
parede de gelo em estado de latência.

Não ouso tocá-la.
Não ouso nada.

Senti o frio e agora tenho medo.

Não que eu queira que sejas o verão
(O inverno tropical me bastava)

terça-feira, 16 de junho de 2009

Ensaio sobre minha angústia

Quando sofro com saudades, vem uma angústia do útero; do ventre.
Dói fundo. Não. Não é dor. A angústia sobe do ventre até a garganta. E meu coração se aperta. E, da garganta fechada, irradia para os olhos secos. Vê como estou chorando? Não? Nem eu.
Esfrego as mãos no rosto e descubro que está seco.
Ninguém vê esse rio escapando do meu coração?

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Retalho I

"A angústia sobe em ondas
como um monstro pegajoso
subindo pelo abismo que eu temo
[o meu abismo, a minha alma.

A angústia vem misturada com a náusea
e com as lágrimas secas que fazem força para escorrer.

Mas que angústia é essa, Maria?
A angústia da saudade de algo
que perdi há tanto tempo que nem mais sei o que é.

Que tortura é essa?
Que medo do monstro que já afugentei?

Guio minha criança até o armário
e lhe mostro que as bestas que teme,
uma vez na luz, simplesmente não existem.

A criança choraminga e me assusta:
vejo que a matei, pois sua realidade eram os monstros
e ela, – que tristeza, Maria – ela era eu."

Um poema um pouco mais recente, mas não tão recente assim.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A canção da primavera

"O Rio de Janeiro é um labirinto
de ruas e morros.
Por onde escorrem e se perdem
sonhos, esperanças partidas
d’uma cidade sem passado.

Minhas esperanças escorrem
pelo rio Carioca.
Meus sonhos evaporaram
com o álcool da cozinha.

Meu amor platônico morreu.
Minhas imagens platônicas morreram.
Meus sonhos platônicos?
[Já fazem tempo.

Em tempos, sonho que,
depois do grande espetáculo,
dizes que me ama.
É patético
(eu sei)
É estranho
(nem nos conhecemos direito)

Te amei por conta da imagem
de bom moço que tinhas diante dos meus olhos.
Te desamei por conta da má vontade
da vida de me dar mais informações
condizentes com a minha imagem.

Digo que não te amo mais,
mas ainda escrevo um poema para ti.

Pensando no próximo verso:
“Espero que seja o último”.

É mentira.
Eu queria dizer “eu te amo”
todos os dias.

Eu queria ouvir
“eu te amo”
todos os dias.

Egocêntrico?
Eu sei.
Penso de forma egocêntrica.

Mas é primavera.
E eu queria ser amada.
Mas é primavera.
E eu queria ouvir
palavras doces.

Mas é primavera
e meus sonhos já secaram.

Minhas lágrimas ainda não."


Poema antigo, do ano passado. Amor platônico é um hábito meu, cheguei a esta conclusão. E isso muda alguma coisa dos meus amores? Nada.


Odeio o blogspot que não deixa as minhas "cavalgadas" direito.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Olhos vítreos

"Ninguém me vê
Ninguém me avisou
Não faz assim,
Não vai dar não.

O meu mundo em preto-e-branco,
Misturo as tintas, tento colorir,
Me embaraço na minha visão.

Me faço suspirar, que aflição,
E sair pra sessão,
Só pra fingir.

Vejo os outros brincando,
Eu gostando de ser tua sombra
E me multiplicar.

Nos teus olhos também posso ver
Minha tristeza te vendo passar.

Nessa sala fria,
Não há clarões, não há dias,
Depois de outros dias.

E no meu coração,
Passas em exposição,
Passas sem ver minha vigília
Catando a alegria que jorra pelo chão."

Sou apaixonada por Chico Buarque, estava apaixonada... Bien, é isso.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Soneto da Saudade

"Eu sinto a sua falta.
Sinto medo do escuro.
Sinto falta de quando
você me pegava no colo.
Sinto falta do seu sorriso.

Durante cinco anos,
você vinha à noite e
me mostrava novos mundos.
Sinto falta das suas mãos.

Durante a sua morte,
você viveu em mim.
Me falava do mundo,
do futuro.
Sinto falta dos seus beijos.

Eu não acredito em deus,
não creio em nada.
É duro dizer adeus
e me sinto abandonada.
Sinto falta da sua existência."


Sim, eu sei, não é um soneto. Mas o nome é esse, foi feito há um tempo, quando eu não tinha noção do que era um soneto. Esse poema foi feito para uma pessoa que eu amei muito e me deixou tem muito tempo.
Publiquei-o aqui porque estou cansada do meu blog (e a minha vida) girar em torno de alguém que definitivamente não me corresponde.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Aquele tempo que se foi

"Naquele tempo que se foi, não nos preocupávamos com o amanhã porque o hoje era mais divertido.
Naquele tempo que se foi, tudo era para sempre e as flores mortas sempre voltavam a viver.
Naquele tempo que se foi, não olhávamos para o passado, porque já tinha passado mesmo.
Naquele tempo que se foi, as brigas duravam um dia no máximo.
Naquele tempo que se foi, era o máximo pegar na mão do namoradinho.
Naquele tempo que se foi, as tragédias do mundo eram coisas de adultos e nós olhávamos apenas para nós.
Naquele tempo que se foi, as fadas trocavam dentes de leite por moedas.
Naquele tempo que se foi, o Papai Noel sempre dava um jeito de melhorar as coisas.
Naquele tempo que se foi, o coelhinho da páscoa adorava brincar de esconde-esconde.
Naquele tempo que se foi, lágrimas eram desperdiçadas com machucados físicos.
Naquele tempo que se foi, não pensávamos que um dia iríamos partir.
Porque o tempo não passa, nós que passamos."



Bem, esse textinho é um texto singelo sobre a infância. Meio baseado num texto da Cecília Meireles ("Aquele mundo que perdemos").