Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"
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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Famélica

Tenho fome. Uma fome animalesca
E urgente que me queima as entranhas.
Uma fome de pele de homem, de carne rija
De homem, fome essa que me queima cada
Centímetro de corpo quando não saciada.

Por vezes, muitas vezes, queria mandar
Para o inferno a Moral e o Decoro
Ou ser apenas um bicho.
Digo, sou um bicho, mas tive
O azar de nascer na única espécie estúpida
Que mistura o desejo animal com um milhão
De outras coisas sem importância.

O pior é que sou tão malditamente
Humana e acomodada que sou incapaz
De apenas saciar a minha voracidade.
Não, também eu associo o desejo com
Outras coisas estúpidas.

Quando a fome aperta,
Os pensamentos pululam loucos,
Fantasias impudicas com qualquer um.
E, como uma anoréxica fecha a boca,
Me fecho, ignorando os impulsos,
Pela Moral, o Decoro e o meu Bem Maior.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Num canto da pista

Não sei amar comedida, amar pela metade.
Não sei amar calma, desprendida.
Desconheço esse amor respeitável.

Se amo, amo mesmo. Talvez demais até.
Me jogo, me entrego, me confesso.
É um turbilhão louco, por vezes constrangedor.

Até hoje, mambembe e solitário.
Amei nesta curta vida em desacordo
E descompasso dos amados.

“Não te acompanho”
Não te acompanho, coração idiota.

Danço sozinha, quase sempre.
Não sei minuetos não sei quadrilhas não sei sambas.
Eu só não sei.

E vou dançando de olhos semi-cerrados,
Fingindo que nem ligo,
Fingindo que sei o que estou fazendo.
Fingindo que não dói.

sábado, 22 de maio de 2010

Fusão

As primeiras gotas começaram a escorrer.
O simples fato de minhas mãos estarem (dormentes e)
prensadas no gelo fê-lo derreter-se

e mal pude, então, ocultar os arrepios
que me tomavam de assalto.
Tu estavas de volta para mim.

(Só para mim, me iludo)

Como os ventos invernais, tentas escapar
ao mesmo tempo em que trocamos carícias.
Mas tenho comigo a brisa primaveril

que, transfiguração de meu hálito morno,
impõe o afeto tácito entre nós.
Afeto esse que suplantou o medo que eu tinha do frio.

As gotas formam poças
e nas poças há grama.
Fico feliz, o gelo está partindo

e não importa se o que vem é a primavera nórdica
ou o inverno tropical. O que importa é que já posso ouvir
as Quatro Estações tocando.

Dança comigo de novo?

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Poema Sazonal

Tenho os braços frouxos, pendentes.
Esta flacidez deve-se à tua ausência.

Não paro de sonhar. Não contigo.
Me afogo em um lago gelado
e te vejo. Não te culpo.

Tinhas alertado-me a respeito da finura do gelo.
Do nosso gelo.
Não era de verão nosso affaire,

Era de gelo.
De gelo e minha primavera quebrou tudo.

Eu sou a primavera tropical.
Creio que comecei a derreter-te
e tu és o inverno nórdico. (Não havia como aguentares)

Te sinto agora atrás de uma grossa
parede de gelo em estado de latência.

Não ouso tocá-la.
Não ouso nada.

Senti o frio e agora tenho medo.

Não que eu queira que sejas o verão
(O inverno tropical me bastava)

sábado, 1 de maio de 2010

A torre de mármore

"Quando cheguei atrasada à torre e descobri as tranças que a Princesa deixara para trás ao fugir com Cyrano de Bergerac, desesperei-me.
Arranquei-as da janela e me recolhi ao choro.
Quando inundei os campos e as vilas com meu rancor e deixei o solo infértil, as lágrimas secaram com as plantas.
E então me inclinei à janela e descobri as delícias de observar o mundo de um pedestal. Sem Príncipes, Cyranos, Narcisos ou Abismos.
Apenas as visitas eventuais de Ícaros, dos doces Pássaros da Noite tão sozinhos quanto eu.
Quando percebo que meu coração estúpido começa a ensaiar um Carnaval fora de época, troco o alpiste por chumbinho e fico sozinha novamente.
Melhor assim. Não devo esquecer que sou uma Bruxa e que assusto. Não devo esquecer que sempre haverá Princesas que usam gaiolas em vez de alpiste.
Não devo esquecer que estou em uma torre e, se me inclinar demais, será um longo caminho até o chão."

Esse texto é a origem de todos os textos envolvendo Cortes e Torres, para os que queriam saber.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Asfixia

Voltas para mim
em forma de sonho perverso,
perturbando minha noite com lembranças
de murmúrios do vento e tinta branca.

Sou comprimida por uma tecido quase roxo,
sujo de manchas. Estás ao meu lado
e podes me salvar do sufocamento,
mas percebo que é a utopia das tuas
mãos que me assassina.

Tão cruéis quanto o pano e as mãos,
teus olhos me perguntam
“sentes falta das aulas de dança?”

Sinto. Dançar sozinha não é mais
a mesma coisa desde tuas mãos e
tua máscara. Ainda quero arrancá-la.

Mas não te responderei, pois sei
que sorrirás em escárnio e abandonarás
o leito móvel sobre o qual estamos.

Prefiro ter tua crueldade a
não ter nem mesmo este sadismo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ensaios

"Não ganhei uma torre, mas ofereceram-me uma cama
junto aos outros cortesãos. Observo-te dormir
em meus sonhos, pois na realidade há dosseis

que protegem teu rosto. Sinto que estou ficando
doente de novo e, juntos, ensaiamos alguns passos.
Nossas mãos se tocam e se afastam e eu sinto um calor

que nada tem a ver com meu pesado vestido.
Quero tocar tua máscara veneziense e sentir o veludo,
quero arrancá-la e quero que teus abismos

busquem somente a mim. Tocam e se afastam.
Quero colar meu tronco no teu e sentir tua pele.
A música acaba e enroscas um cacho de minha peruca em teus dedos.

Beija-a e te afastas. Fico parada no salão,

Morgana, sentes que vais desmaiar..."



Esse poema e os dois últimos fazem parte de uma série que sabe-se lá quando vai acabar.

Expectativa

Dentre todas as máscaras do baile,
a tua era das mais discretas.
E estavas tu no grupo da pequena nobreza.
(Ou será que a Alta veste-se discretamente aqui?)

De fato, eu estava olhando para o cortesão ao teu lado.
Lembro-me de tê-lo convidado para valsar certa vez, em outra Corte.
O Conde, chocado, recusou-me e agora traz uma bela mascarada com ele.

Pensava em como os bailes são estranhos, já que
eu e ela estamos vestidas de ninfas,
(Mas são ninfas tão diferentes!)

E foi aí que te vi. Calmo, não vi-te dançando com ninguém.
Todo debruado em negro, lembravas-me meu corvo
(Por que esta fascinação com os Pássaros Noturnos?)

Estou girando sozinha e te olhando por cima do ombro.
Sei que me olhas também, não sei por que.
Me convidarás para uma valsa?

sábado, 16 de janeiro de 2010

Trama

Desde que posso me lembrar, mamãe me alerta
quanto aos homens-aracnídeos. São muito sedutores, ela diz,
porém, é quase impossível escapar de suas teias.

Eles chegam de mansinho e elogiam sua beleza,
(ninguém nunca tinha me elogiado antes,
afinal, eu sou só preta e amarela, como qualquer outra operária)

te convencem a não trabalhar, te apresentam seus amigos cigarras
e, quando finalmente perceber, estará toda grudada em sua teia.
Mesmo que seu novo dono (porque você se tornou apenas uma escrava)

injete veneno em sua corrente sanguínea,
você não terá como escapar. Porque, depois do veneno é melhor ainda.
E você quer, mas não quer (e não sabe como) escapar.

Quer se livrar dele, porque já vê como tudo terminará,
mas teme como serão os dias sozinha.
E ele te deixa voltar para a colmeia,

e você, crédula, acha que isso é amor.
No fundo, ele apenas quer que você perceba que as outras te olham diferente
todos já apontam e sussurram por suas costas

dizendo: "Lá vai a futura refeição da aranha"

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Bruxos

O corvo, que as Princesas juravam ser um rouxinol, continuou a visitar Morgana todas as noites. A bruxa, assustada com o súbito afeto morno, não teve coragem de trocar o alpiste por chumbinho. Assim, a janela da torre permaneceu aberta.

A cada noite, Morgana enxergava mais e mais o bruxo encantado, oculto sob as penas. E sentia mais frio quando ele alçava voo.
Chegou à conclusão de que bemqueria suas penas negras, bemqueria sua existência.
E ousou descer da torre, se misturar aos aldeões. Não entendia por que as donzelas olhavam com cobiça para o bruxo ao seu lado. Porque, por mais que Morgana estudasse o rosto sério de Merlin, via apenas o seu excorvo.

Mas, quando caía a penumbra, a bruxa voltava para sua fortaleza marmórea. Passava dias trancada e Merlin virava corvo de noite, voava até o poleiro e se queixava. Normalmente, quando Morgana enjoava de seu grasnar, fechava o vidro. Mas nunca, nunca conseguia por chumbinho.

Merlin queria que ela abandonasse a torre e passasse a se abrigar nele, mas Morgana tinha tanto medo...
Tinha medo de se debruçar demais e cair e medo de tornar-se desabrigada quando Merlin se cansasse dela. Ou ela dele.

Porque bruxos são assim, medrosos, Morgana decidia-se: ia até o fundo de seu quarto e corria à janela. Parava no parapeito.
Como saber que ia virar realmente mais um pássaro?

Merlin tinha que entender que ela nunca seria uma princesa.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

queria ter composto elephant gun. assim como queria ter sido gabriel garcia marques ou clarice lispector. mas eu não sou

A bruxa e o corvo

Até o momento, sustentei a firme crença
de que minha torre era o melhor lugar do mundo

Para observar os povos abaixo
e as estrelas acima de mim.

Mas um corvo ignóbil,
sem canto doce ou plumas macias
veio até minha janela sem barras

(As princesas nunca acharam necessário prender-me de vez na torre,
considerando que nunca desfrutei da companhia delas ou me queixei de nada)

e tornou-se uma companhia das noites solitárias.
Mostrei-lhe meus mapas celestes e minhas poções,

divertindo-me com a companhia de um pássaro noturno
que, achava eu, nada queria de mim.

Tola fui ao não notar que o corvo era um bruxo que nem eu.
Tola não, estúpida.

E este bruxo encantou-me, prendendo-me em um estado ilógico.
Será apenas a solidão da torre? me indago.

Tem de ser a solidão da torre que me faz sentir assim.
Do contrário, por que me encantaria eu pelo corvo?

Sei que sou cleptomaníaca, mas não é possível
que minha obsessão chegue ao ponto de meras esmeraldas fazerem tal estrago.

Minhas forças se esvaem e minhas colegas bruxas
(incluindo na conta umas duas fadas e outras tantas princesas)
se riem de mim com a mesma velocidade que tentam me acordar.


Eu quero acordar!
Não é são gostar de taquicardia ou enjoos!

O corvo grasna, indiferente ao meu estado.
Fez ele de propósito ou estava tão sozinho quanto eu?

Não importa, busco a garrafa de vinho na adega
e me preparo para mais uma noite ilógica.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

A canção da primavera

"O Rio de Janeiro é um labirinto
de ruas e morros.
Por onde escorrem e se perdem
sonhos, esperanças partidas
d’uma cidade sem passado.

Minhas esperanças escorrem
pelo rio Carioca.
Meus sonhos evaporaram
com o álcool da cozinha.

Meu amor platônico morreu.
Minhas imagens platônicas morreram.
Meus sonhos platônicos?
[Já fazem tempo.

Em tempos, sonho que,
depois do grande espetáculo,
dizes que me ama.
É patético
(eu sei)
É estranho
(nem nos conhecemos direito)

Te amei por conta da imagem
de bom moço que tinhas diante dos meus olhos.
Te desamei por conta da má vontade
da vida de me dar mais informações
condizentes com a minha imagem.

Digo que não te amo mais,
mas ainda escrevo um poema para ti.

Pensando no próximo verso:
“Espero que seja o último”.

É mentira.
Eu queria dizer “eu te amo”
todos os dias.

Eu queria ouvir
“eu te amo”
todos os dias.

Egocêntrico?
Eu sei.
Penso de forma egocêntrica.

Mas é primavera.
E eu queria ser amada.
Mas é primavera.
E eu queria ouvir
palavras doces.

Mas é primavera
e meus sonhos já secaram.

Minhas lágrimas ainda não."


Poema antigo, do ano passado. Amor platônico é um hábito meu, cheguei a esta conclusão. E isso muda alguma coisa dos meus amores? Nada.


Odeio o blogspot que não deixa as minhas "cavalgadas" direito.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Olhos vítreos

"Ninguém me vê
Ninguém me avisou
Não faz assim,
Não vai dar não.

O meu mundo em preto-e-branco,
Misturo as tintas, tento colorir,
Me embaraço na minha visão.

Me faço suspirar, que aflição,
E sair pra sessão,
Só pra fingir.

Vejo os outros brincando,
Eu gostando de ser tua sombra
E me multiplicar.

Nos teus olhos também posso ver
Minha tristeza te vendo passar.

Nessa sala fria,
Não há clarões, não há dias,
Depois de outros dias.

E no meu coração,
Passas em exposição,
Passas sem ver minha vigília
Catando a alegria que jorra pelo chão."

Sou apaixonada por Chico Buarque, estava apaixonada... Bien, é isso.

domingo, 11 de maio de 2008

Mais uma vez te amo

"Meu coração ficou apertado agora.
O dia inteiro te espreitei e tive vontade de chorar.

Tive vontade de chorar quando ela se recostou em teu colo.
Tive vontade de chorar quando tu a abraçaste.

Tive vontade de chorar quanto tentei falar contigo, e tu?
Tu sorriste para mim como se nada tivesse mudado
[e tornaste a olhar para ela.

Oh, escuridão bem amada, por que ignoras minha presença?
Sinto-me como Eco apaixonada por Narciso.

Mas tu não és belo como Narciso.
Tu me lembras Cirano de Bergerac.

Em todos os aspectos.
Inclusive em que tua maior beleza se encontra nas palavras.

Querido, sofro tanto, sofro tanto e tu ignoras.
Tu ignoras todos os meus sentimentos.

Por que as coisas estão postas assim?
Por que fui tão tola e não percebi que teu sorriso era voltado para mim?
[Não para ela, não para ela.

Percebo agora e temo ser tarde demais.
Pois teus sorrisos para mim ficam cada vez mais escassos.
[E te voltas para ela. E te voltas para ela."


"Mais uma vez te amo", eu espero que seja o último poema de amor da minha fase atual, espero que eu pareça estar tão forte quanto pareço para deixar o Rei morrer e algo de novo nascer nas cinzas.

Dia frio, apareceu um sol de mentira no fim da tarde. Vagabundei o dia inteiro.

Quem inventou o dia das mães? Ah é, o capitalismo.
Tratei minha mãe como sempre, a diferença é que fiz o café da manhã para ela.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Ding dong dell, the pussy is in the well

"Para que Zaratustra nascesse,
Nietzsche teve de chorar.

Minhas lágrimas já se foram
E uma dor insistente de cabeça
Foi a única coisa que brotou.

Estou caindo em um abismo
No interior de minha confusa mente.
Estou apavorada,
Chegará ao fundo?

O choque com o chão de esperanças
[empedernidas
Tirará meus sentidos
Para sempre?"


Tem muito a ver com meu momento.
Estou assustada de verdade.
Na verdade, tinha vontade de postar outro poema aqui, mas prometi que o blog (e a vida) não giraria em torno de uma só pessoa.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Hey you

“...e eu me destruo
me desconstruo
me transformo por você.
E você nem nota.
E o brilho dos seus olhos me perturba
E o seu sorriso sem sentimentos aparentes me perturba.”

“O que você está escrevendo?” Perguntou o rapaz olhando por cima do ombro da garota.
Ela resmungou e tentou fechar o caderno, mas ele era mais rápido e os dedos longos afanaram o caderno. Seu estômago deu uma volta completa, mas ela não o impediu de ler.
“Poesia? Tão típico de você...” Essa doera. Seus olhos se estreitaram, se ele soubesse como o descaso dele machucava... Não daria a mínima como não dava naquele momento.
“Por que você faz tantos poemas?”
Ela pensou um pouco antes de responder.
“Porque, assim, posso entregar o meu coração para quem deve ser entregue sem que essa pessoa necessariamente saiba disso.” Retrucou, olhando-o muito fixamente.

Hey you,
Out there in the cold,
Getting lonely, getting old,
Can you feel me?

Hey you,
Standing in the aisle,
With itchy feet and fading smile,
Can you feel me?
“Posso perguntar para quem é?” O sorriso debochado e superior dele a irritava, dava-lhe vontade de dar-lhe um tapa e, em seguida, um beijo para calar-lhe a boca e tirar-lhe esse sorrisinho superior. Obviamente, se ela o fizesse, o sorriso só aumentaria.
“Claro que você pode perguntar. Pode perguntar o que você quiser, é um país livre. E eu posso responder o que eu quiser. É um país livre, mon cher.” Retrucou, agarrando o caderno que ele já folheava.
“Conhecendo você, eu posso afirmar que esse poema é para a mesma pessoa que você fez todos os outros. E posso afirmar, me conhecendo, que meu sorriso não é desprovido de sentimentos.” Ela pode sentir o rosto empalidecer ante aquela afirmação. Mas não cederia, não deixaria aparente o seu desconcerto. Os dois nunca cederiam.

Hey you,
Out there on your own,
Sitting naked by the phone,
Would you touch me?

Hey you,
With your ear against the wall,
Waiting for someone to call out,
Would you touch me?
“Sua arrogância só cresce com o passar dos dias. O que o leva a crer que este poema e todos os outros são para você? Que o sorriso ao qual eu me refiro é o seu? Pode ser para aquele meu velho amor, para o fantasma que você me mandou esquecer.” Ele fechou a cara, mas o sorriso tão conhecido brincou novamente nas faces rosadas por conta da pele branca combinada com o excesso de sol.
“O que está ouvindo?” Perguntou, apontando para os fones do mp4 que estavam nos ouvidos dela.
“Minha música-vício atual.” Ela respondeu de pouco caso, não dava a mínima para a mudança de assunto. Sabia que ele era assim mesmo. Quando algo o incomodava, ele mudava de assunto e voltava a ser a fria neve eterna da inalcançável montanha.
Ele puxou um dos fones e o mp4 da mão dela. Olhou para o visor e resmungou o nome da música.

Hey you,
Would you help me to carry the stone?
Open your heart, I'm coming home.

But it was only, fantasy.
The wall was too high, as you can see.
No matter how he tried, he could not break free.
And the worms ate into his brain.
“E, te conhecendo como eu te conheço, posso dizer com quase toda a certeza que você ouve essa música pensando na pessoa para quem faz os poemas e que já fez um poema baseado nela.”
Foi a vez do sorriso superior dela iluminar o rosto redondo que seria supostamente infantil se não fosse a expressão constantemente fechada e os olhos que, inquisidores, encaravam a tudo e a todos com a mesma intensidade.
“Você está dizendo demais hoje que me conhece bem. Você, o senhor-arrogante-e-egocêntrico-sabe-tudo, acha que me conhece bem demais. Mas talvez apenas desejasse isso.”

Hey you,
Out there on the road,
Always doing what you're told,
Can you help me?

Hey you,
Out there beyond the wall,
Breaking bottles in the hall,
Can you help me?
Ele apenas ficou quieto. Um sorriso deliciado percorreu seus lábios quando ele pôs um dos fones no ouvido e escutou justo o verso que queria, como se fosse um sinal.
“Eu podia fazer o que você quer, sabe? Mas só se você pedisse.” Ela o olhou fixamente, pensou em muitas bobagens que queria que ele fizesse e teve consciência de que suas bochechas ficaram vermelhas. Umedeceu os lábios, mas não disse o que queria que ele quisesse ouvir.
“Do que está falando?” Perguntou, com a voz falha. Ele se aproximou ainda mais e um de seus dedos enroscou-se em um cacho particularmente fofo do cabelo dela.
“Por que sempre me faz perguntas que já sabe a resposta? Peça. Apenas engula o orgulho e peça.”
A voz não queria sair. Não queria. Eles não tinham consciência de que a música já tocava de novo. Sem saber o que fazer, ela começou a cantar junto com a música.
...Would you touch me?” Ele nunca a deixou passar desse verso, considerou como se fosse o pedido que queria ouvir e puxou-a para um beijo. O beijo que há meses ela esperava.
E o sorriso arrogante dele só se alargou quando se separaram, exatamente como ela previra.
“Por que os seres humanos são tão complicados?” Ela murmurou, ainda aninhada em seus braços.
“Não são os seres humanos que são complicados. Somos nós dois que complicamos as coisas mais simples.” Ele respondeu, aspirando o cheiro que tanto gostava: o dela.
“E por que fazemos isso?”
“Porque, senão, seríamos outros que não nós.”

Hey you,
Don't tell me there's no hope at all.
Together we stand, divided we fall.