Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"

domingo, 8 de junho de 2008

Canção do adeus

"Me beija, amor,
Toma meus lábios
Antes que o veneno faça efeito.

Me beija, amor,
Suga minha alma
Que eu virei o frasco inteiro.

Me beija, amor,
Me faz sua Julieta
Que eu estou desfalecendo.

Me beija, amor,
Cola-se, quente, a mim
Que estou gelada.

Me beija, amor,
E faz deste gesto de despedida
Um último adeus.

Me beija, amor,
Meus olhos molhados
Já não veem mais nada.

Me beija, amor,
Que sua voz não me alcança mais.
Deixe os anjos levarem o recado."

Esse poema não é uma experiência pessoal propriamente dita. Foi baseado em um sentimento de perda que eu captei e criei isso. Finalmente voltando aos poemas que não são pessoais.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Olhos vítreos

"Ninguém me vê
Ninguém me avisou
Não faz assim,
Não vai dar não.

O meu mundo em preto-e-branco,
Misturo as tintas, tento colorir,
Me embaraço na minha visão.

Me faço suspirar, que aflição,
E sair pra sessão,
Só pra fingir.

Vejo os outros brincando,
Eu gostando de ser tua sombra
E me multiplicar.

Nos teus olhos também posso ver
Minha tristeza te vendo passar.

Nessa sala fria,
Não há clarões, não há dias,
Depois de outros dias.

E no meu coração,
Passas em exposição,
Passas sem ver minha vigília
Catando a alegria que jorra pelo chão."

Sou apaixonada por Chico Buarque, estava apaixonada... Bien, é isso.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Apenas um Eco de Narciso

"Outrora hei comparado a mim mesma com Eco.
A tola que se apaixonou por Narciso.

Percebo um leve equívoco em minha comparação.
Não és tu Narciso. Sou eu mesma.

Apaixonei-me por uma imagem.
E, efetivamente, tenho de agradecê-lo.

Agradecer tua princesa também, ó glorioso Rei.
Afinal, se não houvessem jogado uma pedra n’água,

Não haveria eu terminado por me afogar?
Talvez a história fosse mais bonita assim, pena.

Diga-me, sua Majestade Cirano de Bergerac,
Como é brincar tão magnanimamente com o coração de alguém?

Foi outrora minha dor tão peculiar
Que tu, o cientista, não pudeste deixar incompleto o experimento?

Diga-me, el Rei,
Como é partir o coração de uma reles plebéia?

Há tempos, comparei-me a uma tela,
[um brinquedo teu.
Ledo engano! Não me elevo a tão alto posto!

Brinquedo é a delicada princesa,
Que estimas e tens medo de quebrar.

Que fui eu?
Que sou eu?

Ah, mentiroso vil!
Ah, tola nobre falida!

Ainda não aprendeste que ele gosta de te ferir?
Ainda não aprendeste que ele não gosta de te ferir?
[Ele não sente nada por ti, tola."



Boas notícias: o amor idílico vem se transformando em mágoa e raiva. Graças aos céus.



Há horas falando com minha Seh. Tantas saudades dela... Oh céus, quando vamos nos ver?



domingo, 11 de maio de 2008

Mais uma vez te amo

"Meu coração ficou apertado agora.
O dia inteiro te espreitei e tive vontade de chorar.

Tive vontade de chorar quando ela se recostou em teu colo.
Tive vontade de chorar quando tu a abraçaste.

Tive vontade de chorar quanto tentei falar contigo, e tu?
Tu sorriste para mim como se nada tivesse mudado
[e tornaste a olhar para ela.

Oh, escuridão bem amada, por que ignoras minha presença?
Sinto-me como Eco apaixonada por Narciso.

Mas tu não és belo como Narciso.
Tu me lembras Cirano de Bergerac.

Em todos os aspectos.
Inclusive em que tua maior beleza se encontra nas palavras.

Querido, sofro tanto, sofro tanto e tu ignoras.
Tu ignoras todos os meus sentimentos.

Por que as coisas estão postas assim?
Por que fui tão tola e não percebi que teu sorriso era voltado para mim?
[Não para ela, não para ela.

Percebo agora e temo ser tarde demais.
Pois teus sorrisos para mim ficam cada vez mais escassos.
[E te voltas para ela. E te voltas para ela."


"Mais uma vez te amo", eu espero que seja o último poema de amor da minha fase atual, espero que eu pareça estar tão forte quanto pareço para deixar o Rei morrer e algo de novo nascer nas cinzas.

Dia frio, apareceu um sol de mentira no fim da tarde. Vagabundei o dia inteiro.

Quem inventou o dia das mães? Ah é, o capitalismo.
Tratei minha mãe como sempre, a diferença é que fiz o café da manhã para ela.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Ding dong dell, the pussy is in the well

"Para que Zaratustra nascesse,
Nietzsche teve de chorar.

Minhas lágrimas já se foram
E uma dor insistente de cabeça
Foi a única coisa que brotou.

Estou caindo em um abismo
No interior de minha confusa mente.
Estou apavorada,
Chegará ao fundo?

O choque com o chão de esperanças
[empedernidas
Tirará meus sentidos
Para sempre?"


Tem muito a ver com meu momento.
Estou assustada de verdade.
Na verdade, tinha vontade de postar outro poema aqui, mas prometi que o blog (e a vida) não giraria em torno de uma só pessoa.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Soneto da Saudade

"Eu sinto a sua falta.
Sinto medo do escuro.
Sinto falta de quando
você me pegava no colo.
Sinto falta do seu sorriso.

Durante cinco anos,
você vinha à noite e
me mostrava novos mundos.
Sinto falta das suas mãos.

Durante a sua morte,
você viveu em mim.
Me falava do mundo,
do futuro.
Sinto falta dos seus beijos.

Eu não acredito em deus,
não creio em nada.
É duro dizer adeus
e me sinto abandonada.
Sinto falta da sua existência."


Sim, eu sei, não é um soneto. Mas o nome é esse, foi feito há um tempo, quando eu não tinha noção do que era um soneto. Esse poema foi feito para uma pessoa que eu amei muito e me deixou tem muito tempo.
Publiquei-o aqui porque estou cansada do meu blog (e a minha vida) girar em torno de alguém que definitivamente não me corresponde.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Caixinha de Música

O barulho dos tanques aumentava à medida que se aproximavam.
-Eu tô com tanto medo... -Sussurrou seu pequeno irmãozinho, grudando ainda mais o corpo no dela.
Engoliu o medo e deu um sorriso para fortalecê-lo. Havia prometido à sua mãe que iria cuidar do pequeno.
-Não precisa. Está ouvindo esse barulho? -Disse, afagando sua cabeça.
Ele fez que sim com a cabeça.
-São as portas do céu se abrindo... -Começou.
Olhou para o céu cinzento, sabia que era mentira. Sabia também que seria a sua última mentira.
O pequenino se afastou um pouco, indignado.
-Não é não. São os tanques maus vindo pegar a gente. -Reclamou.
Ela o apertou contra si, com medo.
-Sim. Mas há um outro barulho. Aquela música que a mamãe sempre canta... -E, como mágica, a música começou a soar.
O menino, maravilhado, sorriu.
-A mamãe está de braços abertos naquele vestido azul de dia de festa. E o papai está com aquela farda bonita...
A música suave embalava a criança.
-Atrás deles, estão tantos e tantos anjos...
-Mas não são os anjos que cantam no céu? -Perguntou meio sonolento.
Ela fechou os olhos e deixou pequenas lágrimas rolarem pelo rosto.
-São, mas...você nunca percebeu? –Perguntou, fingindo surpresa.
-O quê? -A curiosidade tentava vencer o cansaço de dias acordado.
-A mamãe sempre foi um anjo. -Sussurrou na pequena orelha pálida do irmão aquele segredo, tão secreto, que era quase pecado ser dito em voz alta.
-Eu sempre soube... -Foram as últimas palavras dele antes de dormir.



Dias depois, participantes da Cruz Vermelha vasculhavam os destroços de um abrigo.
Descobriram os corpos de duas crianças. Abraçadas, dormiam sorrindo o sono eterno da morte.

Ao fundo havia uma música insistente. Descobriram, apertada na mão da menina, uma pequena caixinha de música.



Eu gosto um bocado desse conto, é fofinho. Antigo...
Hoje foi um dia traquilo, sem nada demais.
Fui na médica, comecei a escrever o roteiro para uma peça... Nada demais.
Ah sim, tem o poema novo. Mas esse eu só vou publicar depois da peça ser encenada!

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A boneca-menina

Eu estava no escuro,
com (muito) medo.
“Será que você sabe que eu existo?”
Pensei enquanto acompanhava
(apenas com os olhos)
cada movimento seu.

Em meu sonho,
eu era feita de pano.
E você me salvava.

Na realidade, eu sou feita de carne.
Mas, naqueles minutos, eu virei estátua,
tamanho era o medo que eu sentia.
Você, que murmurava segredos,
virou para mim
e fez-se a luz.

Seu sorriso me transformou

de menina em boneca
de boneca em estátua
de estátua em menina novamente.

Menina trêmula, mas feliz.
Feliz e medrosa.


Poema antiquíssimo feito para um velho amor meu, eis aí a origem do nome do blog.
E eu só quebro a cara. Pooois é. O único que deu certo durou pouquíssimo tempo.
Vai ver as coisas na minha vida são como fogos de artifício. Vem fumaça, fumaça, então vem um imenso clarão de luz que dura uns segundos e mais fumaça novamente.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Fantasma da Ópera, Mitologia Grega e minha vida amorosa

Disse Christine (Teri Polo) na primeira versão de "O Fantasma da Ópera" para Eric (Fantasma/Charels Dance) algo parecido com isto: "I've saw your eyes, I knew your heart. Love, why I can't see your face?" (Eu vi seus olhos, eu conheço seu coração. Amor, por que não posso ver seu rosto?)

Como todos os que conhecem a história (os que não conhecem, me perdoem ou vejam o filme para depois ler isso) Eric (já estraguei a surpresa ao chamá-lo de Eric mesmo) tem o rosto disforme e por isso usa uma máscara. Só que a pequena (e, nessa versão, loira) Christine não sabe disso e fica insistindo. O pobre coitado não quer ser abandonado pela amada e se recusa a mostrar-se, até que ela consegue descobrir a contra-gosto dele e (ooops, se não viu o filme, não leia) as previsões ruins dele se concretizam.

Essa passagem do filme me lembra a lenda de Psiquê.
Bem, para os que não conhecem:

"Psiquê era a filha caçula de um Rei Grego (cujo nome não nos importa) e a mais bela de todas. Vários homens iam visitá-la e comparavam sua beleza com a da deusa Afrodite (para os leigos no assunto, deusa grega do amor, Vênus para os Romanos).
No início, a deusa até que ficava lisonjeada com o fato de sempre encontrarem uma mortal para lembrar dela, mas depois, começou a sentir ciúmes.
Com raiva da moça, mandou seu filho Eros (deus do amor grego, Cupido para os Romanos) ir flechá-la com uma flecha da paixão pelo mortal mais horrível que houvesse e, por sua vez, flechar o alvo do amor de Psiquê com uma flecha da repulsa. Meio a contragosto de ter de realizar todos os caprichos da mãe, Eros foi.
Porém, quando armava o arco, a flecha da paixão feriu seu dedo e o sumo envenenado fê-lo se apaixonar por Psiquê.
Desesperado, Eros correu à mãe para pedir-lhe ajuda. Afrodite, a princípio, não quis fazer nada e ainda ralhou com o filho por ter fracassado tão retumbantemente na missão. Mas, mediante as ameaças de Eros, Afrodite cedeu e decidiu ajudá-lo. Com uma condição, Psiquê nunca poderia ver o rosto de Eros.
Paralelo a isto, o pai de Psiquê começou a ficar preocupado com o fato de a filha nunca se casar e decidiu consultar um Oráculo. O Oráculo falou que a filha do rei estava destinada a se casar com o monstro mais pérfido de todos, o monstro que se infiltra quando menos se espera e nos torna vulneráveis a tudo. Mas também, este monstro era muito forte e quase impossível de ser destruído.
O pai de Psiquê se desesperou com isso, mas seguiu as instruções da sacerdotisa e abandonou sua filha ao pé de um desfiladeiro.
O que o rei não sabia era que isso tudo era uma armação de Afrodite para que Psiquê se casasse com Eros (Eros, em grego, também significa 'amor', o monstro ao qual a profecia se refere).
Psiquê esperou e esperou, até que os mornos ventos do sul vieram e levaram-na para a frente de um imenso palácio.
Lá dentro não havia ninguém que Psiquê pudesse ver, apenas criados invisíveis que falavam com ela e cuidavam de seu bem estar. De noite, um marido sem rosto aparecia e era tão amável e carinhoso que Psiquê começou a se encantar por ele.
Passado um tempo, Psiquê começou a se queixar ao marido que se sentia solitária e queria muito rever as irmãs.
Dito e feito, no dia seguinte as irmãs de Psiquê estavam no palácio.
As invejosas irmãs de Psiquê babaram de ódio ao verem a vida que a irmã levava. E, sutilmente, agindo como Éris (a deusa da discórdia) plantaram na mente a idéia de que Psiquê tentasse ver o marido de noite, enquanto ele dormia e que levasse uma faca para o caso de ele ser um monstro. Psiquê tentou contra-argumentar, dizendo que só porque o marido não a deixava ver seu rosto não significava que fosse um monstro. As irmãs foram categóricas, ela deveria fazê-lo.
A ingênua Psiquê assim o fez. De noite, com uma lamparina, iluminou Eros enquanto dormia.
Ao ver o lindo rosto do marido, apaixonou-se de vez.
Porém, quando se inclinou para olhá-lo melhor, uma gota de azeite pingou em seu ombro e ele acordou, assustado e irritado de vê-la ali, apesar dos avisos e ainda com uma faca.
'Tola!' -Ele gritou -'Não disse que não devias me ver?! Mas destes ouvidos a suas irmãs e puseste tudo a perder!'
E, numa lufada de vento, tudo sumiu. O palácio, o marido, tudo. Apenas restou Psiquê chorando sozinha na grama."


Em algumas versões a lenda acaba aí, em outras Psiquê é morta. Mas nas que eu mais gosto, Psiquê casa-se novamente com Eros, provando que o amor é mais forte que tudo e vira a deusa do Sonho (daí a "psique" de Freud), para provar que tudo pode se realizar.



A questão é que as duas histórias se entrecruzam quando as moças insistem muito e põem tudo a perder. A diferença, é que Eros era lindo. Eric, não.
E que as duas tem muito mais sorte no amor do que eu.



Bem, eu vou ficar um bom tempo sem postar poemas de amor. Se o fizer, serão mais melancólicos ainda ou velhos, já que o meu Rei correu mesmo para os braços da Princesa, sem me enxergar nem como Bruxa.

Beijos

Aquele tempo que se foi

"Naquele tempo que se foi, não nos preocupávamos com o amanhã porque o hoje era mais divertido.
Naquele tempo que se foi, tudo era para sempre e as flores mortas sempre voltavam a viver.
Naquele tempo que se foi, não olhávamos para o passado, porque já tinha passado mesmo.
Naquele tempo que se foi, as brigas duravam um dia no máximo.
Naquele tempo que se foi, era o máximo pegar na mão do namoradinho.
Naquele tempo que se foi, as tragédias do mundo eram coisas de adultos e nós olhávamos apenas para nós.
Naquele tempo que se foi, as fadas trocavam dentes de leite por moedas.
Naquele tempo que se foi, o Papai Noel sempre dava um jeito de melhorar as coisas.
Naquele tempo que se foi, o coelhinho da páscoa adorava brincar de esconde-esconde.
Naquele tempo que se foi, lágrimas eram desperdiçadas com machucados físicos.
Naquele tempo que se foi, não pensávamos que um dia iríamos partir.
Porque o tempo não passa, nós que passamos."



Bem, esse textinho é um texto singelo sobre a infância. Meio baseado num texto da Cecília Meireles ("Aquele mundo que perdemos").