Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O afeto é um fio quente que pode até ser infinito. Quando o ser amado se afasta um pouco, o fio estica o carretel do peito e a gente dói em saudade.
O afeto é um fio quente trançado a muitas mãos. Para ser perene bastam quatro.
O afeto é um fio quente, com um carretel grande que balança quando andamos em pulsações que vibram no corpo todo. E derrete em abraço.

Trilha

Admito que, há tempos, o sal me gretou os lábios
E me pus a recordar teus afagos.

Meu coração se desfez em areia nas tuas mãos.

E sigo andando meio melada de iodo, meio arranhada de caixote,
Cada vez mais para longe da orla,

Cada vez mais para longe de ti.

Sinto ainda o cheiro de maresia, pois sou eu meio criança do oceano.
Filha da terra, criada às margens do oceano.

Vejo que tua viagem ao Nada não significava retorno ao meu porto,
Vejo que nem sequer me pediras que esperasse.

E levantei e segui.
Com minhas pernas de terra, meu cabelo duro de sal,
Sigo sempre. Apesar de.

Apesar das saudades, apesar das feridas, apesar das frustrações.
Porque as flores e as borboletas e mesmo o chão que piso
E o mar que navegas
Seguem sem nós. Seguem apesar de nós.

E eu optei por ser em constante luta
Em constante busca de plenitude.

Ser em constante com o sol que nasce e morre
E me banha em calor e diz...
Que me diz o sol?

Em constante com a terra, ando.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Desengaiolar

De mim brotam sons alegres e lágrimas de alívio.
Toneladas de cimento, de meus ombros removidas.
O contentamento veio travestido em notícias

E sinto, como por magia,
O medo das marcas desaparecerem.

É como se um vento soprasse dizendo:
"O mundo sabe que o seu segredo é real"
"O mundo sabe que a sordidez não é sua"
Certo, não o mundo. Mas, ao menos, parte dele.

E danço; só e feliz.
A música é música em meus ouvidos.
Eu me perdoo

e me abraço.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Da falta

De todas as coisas que não fiz com você,
Mais me faltam aquelas cuja promessa solenemente leviana
Me encheu a boca em doce,

Me encheu o peito em vazio,
Me encheu o estômago em côdeas de esperança.
Sinto-as se digerindo em ácido
A cada cartaz que vejo do que não fomos.

E te busco. Mais em suspiros que sonhos.
E te busco, com meus dedos no quarto escuro.

Ver-te é tortura balsâmica.
Se desaparecesses, o ácido inundaria minhas roupas.
Então ainda sento no cais
E molho meus pés no sal

Vendo ao longe sua flotilha.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Chá para dois

Afastam-se os elefantes da manada
Para, em resignada nobreza, morrerem.

Menos os brancos.
Estes seguem pairando entre os comensais
Em sua saudosa inexistência.

Tomo chá com a morte vestida de saudade
Bebemos vida e festa.
A morte é viva, pois os mortos já não morrem mais.

Bebemos vida e festa
E dançarinos nadam no chá.

A morte é viva
E os elefantes brancos moram no açucareiro.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Afogamento

"Como se houvesse rompido o lacre de uma represa, agora sou sufocada por lágrimas que tenho de conter. As portas da dor, da vergonha e da confusão se escancaram de par em par dentro de mim e, sozinha, me demoro em suas soleiras implorando que tais monstros não deixem a reclusão, não mostrem suas feições assustadoras e não me forcem a explicar a outros como estes vieram morar em mim.
O mundo fora do mundo encarnado que habito me interessa erraticamente. Por vezes estou confortável; as portas se encostam e brinco e gargalho. Na maior parte do tempo...
'Você está bem? Quando está tão calada parece que há algo de muito errado acontecendo.'

Bem sabem meus travesseiros molhados quão errada estou."

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

G

Separo minhas coxas para receber em mim o encontro.
Sagrado ato de louvor à vida.
Meus músculos tensionam, relaxam, devoram.

Louvor à vida digo, mas não confundam;
Meu louvor afasta-se da concepção, encerra-se no orgasmo.
A gravidez me é desejada quando imbuída de prazer e sonho.
A todo o resto ponho fim.

Separo minhas coxas, exponho o sensível de mim,
Enlaço com braços e pernas, danço.
Gozo, nirvana, pequena morte, explosão, orgasmo,

Encerra em teu suspiro todos os hinos do mundo.
Após tua visita, plenitude.
E, da plenitude, sono.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Monções

Falta em mim amor perene
Folhas largas e chuva forte.
Falta em minha terra fértil
Ciclo longo de amor e morte.

Rosa Vermelha

Eu não sei não viver-amar. Não sei não estar em paixão.
Amo a lua, amo as árvores,
Amo o sangue que corre nas minhas veias e nas suas.

E amor me é prazer, amor é querer liberdade
Querer plenitude, querer cachoeira e eclipse.

É, portanto, por amar que sofro quando
Nosso sangue tinge de vermelho as ruas.
É por tanto amar que abraço vermelho, a cor.

É, portanto, por tanto amar em nós, em vermelho,
Que amo-sonho-luto em Nós, Vermelho.

E sorrio ao ouvir brados
E choro lágrimas nossas
E digo: comunismo.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

A Descoberta

"Afastados o sol quente e minhas angústias,
Relembro o peso morno de tuas mãos sobre as minhas.

Como posso eu virar-te as costas se, sem teres água,
Te dispuseras a me regar quando por água clamei?

Não sou árvore, imóvel.
Sou mulher, sou Ulisses,
E seguirei minha vida sem ignorar tuas dores, teu canto de Lorelai.

Não te aguardo. Não murcharei.
Sigo meus passos continente Eu adentro
Sem fechar a trilha aberta.

Segue teu caminho, amigo.
E vejas em mim um porto, uma trilha.

Segue mar afora, vento.
Sob meus galhos acolher-te-ei."

Se esse poema se choca com o de ontem não é acaso. Os sentimentos em mim se contradizem e são todos verdade, todos igualmente meus. Não desdigo a lamúria byroniana de ontem, apenas, hoje, prefiro me mover à moda de Lispector (qualquer semelhança não é mera coincidência).