Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"

domingo, 26 de janeiro de 2014

calmaria

Contemplo as nuvens que rondam seus olhos,
Tão velhos no rosto jovem.

O sol fez travessuras em nossas peles
E deixou marcas,
Similares aos hematomas que trago na coxa.

Esses vislumbres transbordam a água
Da sua borrasca no rosto que é meu.

Não se alimenta uma pantera com pratos de leite,
Mesmo que ela ronrone e se deixe acariciar.

Seus suspiros são os ventos que anunciam a chuva
Me pergunto quando e onde desabará.

domingo, 19 de janeiro de 2014

VI

Conto tudo porque simplesmente parece impossível.
Conto porque cada dia me parece último,
Porque houve um tempo em que o amanhecer me fazia lembrar
De que as nossas vidas continuavam, separadas.

Agora eu te quero e você me quer. Queremos juntos, em presente.
A palavra que mais usei naquela noite em que nasceram flores de mim
Foi "sólido". A cada vez que te via ou te tocava, tudo parecia tão sólido.

Acho engraçado que um sentimento tão abstrato seja tão concreto.

Saí das metáforas, das fábulas, do não dito
E passo às cartas do cotidiano. Como um diário coletivizado.
Coletivizando toda a solidez que eu sinto

Com o amor que você me dá.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

da insegurança

As estrelas coalham o céu de Parati.
Quando eu era menina (e pintava) peguei uma escova de dentes e joguei tinta no papel.
Ficou igualzinho às noites de Corisco.

Vi a lua crescer na Península
Segurei sua mão enquanto discutíamos astronomia
E planos para o futuro.

Você sempre me parece longe, mesmo quando está perto e ri.

Às vezes eu me pergunto se o amor de gente grande é assim,
Sem as febres e os calafrios e a paixão intensa que queima.
E às vezes eu me pergunto se o problema é nosso mesmo.

Qual é o problema, se damos as mãos, andamos juntos e nos chamamos de "amor"?
Como alguém pode chamar de amor sem nunca dizer que ama?
Acho que o bicho que me dói é eu ter te querido sozinha por tanto tempo

Eu ter tido medo quando as pedras voaram perto do seu rosto,
Eu ter tido medo quando o carro explodiu e ninguém sabia de você...

Acho que o bicho que me dói é a impressão de eu ter te vencido pelo cansaço.
Como se você tivesse sentado e dito "ok, aceito que me ama".
Aceita, como uma gripe forte que precisa de 7 dias para passar.


Talvez seja só TPM.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

V

Você mexeu no meu cabelo e elogiou a franja nova
E, quando enlaçou minha cintura e puxou para perto,
Eu não resisti ao impulso de cheirar seu pescoço

Como um animal cheira os outros da sua matilha
E se sente em casa.

Disse mais tarde que os poetas sentem tudo intensamente
E eu pude apenas concordar, sorrindo em silêncio.
Bem sei a intensidade dessas ondas que me assolam.

Fico calma em dias de sol que começam com traquinagens na cama,
Fico calma como uma onda que se retrai...
E explode na praia, em saudade.

Dezembro é um mês difícil. Domingos são dias fáceis.
Preciso de mais domingos no meu dezembro,
Para ser também fácil.

Domingos com o cheiro do seu pescoço
E o peso morno do seu braço no meu quadril,
Enquanto dorme calma a minha tempestade.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

zão fachisco

Eu demorei para entender que você não era o meu duplo.
Mas um pedaço de mim, não há quem me convença de que não.
É para você quem corro quando faço merda,

É a sua palavra que eu busco na tristeza
E são nossas risadas as mais completas.
Somos mais do que amigos: crescemos cúmplices.

Crescemos e você virou um super-cara,
O super-amigo das suas histórias, lembra?
Meu colo ainda e sempre estará disponível

E nossas rixas fazem parte,
Assim como as histórias de traquinagens no passado
E de companheirismo no presente.

A cada ano que passa você é mais meu companheiro.
Antes cúmplice de travessuras,
Hoje cúmplice de sonhos.

A cada ano que passa você é mais você,
Mais próprio e senhor do seu nariz.
De quem eu tenho muito orgulho de olhar no olho

E caminhar de mãos dadas.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Primavera

O exercício de calar e temer deixa um gosto acre
Como flores mortas enfiadas boca adentro.
É a covardia que nos mata pouco a pouco.

Quando nem irmãos nem amigos se levantam e nos defendem,
Quando nossos pais e nossa polícia nos batem para que sentemos,
As flores mortas se putrefazem, espalhando chorume em nosso sangue.

Temos medo de que o mal respingue em nós
Temos medo de que nem quisessem nossa bravata, para começo de conversa.
Temos medo e calamos. Tememos.

Nessas horas em que nós fechamos o ciclo,
Em que aprendemos o nosso lugar e engolimos o bolo da garganta,
Alguém está sendo morta, pouco a pouco. Aprendendo seu lugar.

Podemos vomitar o medo, ver a morte nos olhos.
A morte é inevitável, a covardia não.

Arrancar o buquê podre do peito é o primeiro passo
Para a tão sonhada primavera.
Que só se faz de sementes

De flores vivas e valentia.

domingo, 10 de novembro de 2013

querer

Sonhei que esperava um filho nosso.
Ele crescia e se mexia dentro de mim,
Feito de luz.

Esse filho não era uma criança propriamente dita.
Não seria um bebê em meus braços
De quem veríamos crescer os dentes de leite.

Sonhei que gerava um futuro nosso,
De luz.
Ele era calmo, morno

E não te dava medo.
É preciso haver presente para haver futuro
E eu queria que você quisesse ter coragem

E que a luz não escorresse, no sonho,
Pelas minhas pernas.

Um futuro abortado de medo.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

IV

Mesmo ateia sempre dirigi perguntas ao céu.
Algumas meninas destroçavam flores
(bem em quer, mal me quer),
Eu, que lia poemas, fui convencida
A despetalar estrelas.

São azuis, brancas e vermelhas
No céu cheio de luzes da cidade.
São cúmplices perfeitas por serem inanimadas.

Meu amor, sinto sua falta
Em suas longas navegações.
Não sou marinheira, andarilha,
E sinto sua falta em meus caminhos.

Gosto do seu ser, livre e intenso.
Tenho também minhas formas de liberdade,
Meus silêncios e labirintos

Onde ecoam muitas vozes e seus sorrisos.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Ano luz

Os cometas descrevem longas órbitas pelas galáxias.
Errantes, gelados, deixam para trás um rastro de luz
E saudade.

Como se pode amar as estrelas?

Ficar velho esperando seu retorno?
Amando algo que já morreu e ainda brilha?
As estrelas são gás, os cometas são pedra

E a saudade sentida é física.
O mundo fere em ausência,
Seguindo a dança das estações.

Contar estrelas cadentes e esperar o rastro longo.
Como amar as estrelas?
Que brilham ao longe, mortas e frias.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

frio

Gostaria que o sol de primavera
Me seguisse com um facho
Invadindo os buracos de treliça que fez a saudade

Como dança no pátio ao longo da tarde.
Mas há trepadeiras de hera
Que me cobrem, úmida,

De olhos curiosos e raios de sol.
Sinto frio ao longo do dia,
Como o Cel. Aureliano Buendía também sentiu

Ao cansar-se da guerra.
Canso-me jovem de viver em guerra
E em civilidade. É a dupla identidade que fastia

E quero dormir o dia todo,
Enrolada em mantas,
Já que não me aquece o sol.