Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"

sábado, 21 de setembro de 2013

Ultra leve

Sob o sol se abrem minhas asas
De saíra de sete cores.

Sou pássaro exótico,
Filha dos trópicos,
Feita de som e de cor.

Sou amante e amiga do filho do vento
Que sopra minhas penas
Para o alto e para perto
Do peito que é seu.

Amanhã chega a primavera
E o ar tem cheiro de maresia e calor.
Fica para trás o tempo frio
E também aquela tempestade.

Virão outras. Chuvas torrenciais de verão
Para regar a terra
E o meu coração.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Carrego a memória ingrata de você
Se agitando gelada nos meus vazios.

Ela não cicatriza, apenas perde força
Como uma bala de R-15 dentro de um caveirão.

Eu odeio o fato de termos tanto e tantos em comum
Odeio que fotos suas fiquem brotando de repente
Odeio que tudo tenha sido real.

(embora a fila das pessoas que acham que não seja enorme)

E tudo isso me fere.
De novo
E de novo

E mais uma vez.

domingo, 25 de agosto de 2013

sentir

Já conheço de cor os traços do seu rosto,
Mas as pontas de meus dedos precisam lembrar-se
De novo e de novo. Leio seus segredos em braile.

A mão é mais próxima ao peito do que os olhos.
O toque acalma, faz lembrar que é tudo sólido, tudo real.

O corpo tem memórias e a memória tem tato.

Fim de tarde na Lagoa, grama suja sob a canga,
Luz laranja. Tudo sólido, tudo real.

sábado, 10 de agosto de 2013

aos meus amigos

Enterrem o meu coração junto aos seus
Na curva daquele rio largo que corta o horizonte.
Deles nascerão árvores e música.
Nossos sonhos adubarão essa terra.

Me enterrem com aqueles que escolhi como irmãos,
Soem os tambores quando eu me for.
Dancem, sigam a batalha.

Que meu coração sirva de adubo
Para o que chamaremos de revolução.

Revolver

Me ensinaram a temer a polícia.
Seus coturnos, suas fardas e armas.
Me ensinaram a ser sempre bandida,

A prender o fôlego diante de viaturas
E a só dizer "sim senhor" com desprezo.
A polícia me ensinou a odiá-la,

Me ensinou o que é medo, o que é poder.
E quero destruí-la, de cima a baixo,
Arrancar suas insígnias, vandalizar seus capitães do mato.

Já não aguento ser serva, escrava, calada.
Quero bater meus tambores
E que comece a guerra.

do amor

Marulha nas pedras a água clara
E eu só queria te dizer
Que te amei pra sempre,
Enquanto o pra sempre durar.

Acho que nunca estive tão feliz
(e é o que acham os amantes)
Nem tão certa de nós e nossas escolhas.
Enquanto durar o pra sempre,

Serei sempre contente, sempre fiel.
Justa, na medida do amor.
Minha, na medida da luta.
Nós, na medida do eterno.

I

À noite, as montanhas passeiam pela orla como velhas tartarugas de lendas. Eu as vejo e penso nos contos de Sherazade. Não são minhas amigas, as montanhas, nem tampouco me querem mal. São répteis antigos, a quem minha vida é tão distante quanto as estrelas...
Eu não sei se era melhor nos tempos em que era amor e era poesia, em que a poesia era a linguagem rude do amor, irmã feia da música. Mas que era mais fácil viver o amar e simples o sentir poético e musical, isso era. Talvez o problema seja o medo de se expor, o medo do ridículo. Agora penso em Drummond e Huxley. Penso que ridículos foram aqueles que nunca se expuseram e ridículos são aqueles que não amam. Penso que sou o selvagem no admirável mundo novo, querendo as intensidades apaixonadas, as febres violentas e o amor completo, tuberculoso, em um mundo de sentidos esgarçados de êxtase do soma, do ecstasy.
Quero o sexo paciente e o sexo desesperado, o coito angustiado daqueles que esperaram muitos anos para se ver uma última vez. Quero a nudez dos corpos, o suor das peles e a sofreguidão intensa a ser apenas suprida com o beber da saliva.
A contemporaneidade é um fardo àqueles que cresceram com Shakespeare e Keats e sou como o selvagem de Huxley, ansiando por um lirismo que já não existe. Sou?
As montanhas não dão respostas, apenas seguem seu curso até que o amanhecer as torne em pedra e a erosão faça delas pó.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

das flores

Não pus na água a rosa branca que enfeitou meus cabelos,
Deixei-a apodrecer sem mumificação em cima da minha escrivaninha.

Mesmo murcha ainda é rosa querida,
Embora lembre de leve
Os pompons de tule das colombinas antigas,
Amarelados na foto em sépia

Rosa amiga, flor mulher,
Ensina-me sobre o tempo.

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Há dias em que você se mexe na cama
E me aperta com força pela cintura,
Como se me pedisse para não ir mais embora.

E há dias em que você passa de mansinho
Sem dizer "oi" ou "tudo bem?",
Como se me pedisse para parar de aparecer.

E há semanas e semanas
Em que você some.
Vai para outros lados, longe do meu.


terça-feira, 30 de julho de 2013

da noite passada

Eu não sei exatamente o que foi embora,
Mas resta em meu peito um canto vazio.
Ando pelo mato orvalhado, ainda está escuro

E, com as mãos nuas, colho estrelas
Para que o sol não as queime.
Guardo-as no peito esburacado,

Já que há uma mágica que faz com que
Seja ele sem fundo. No meu peito cabem
Todas as estrelas do mundo,

Caberia (cabe? caberá?) todo o amor também
Mas aqui falo de estrelas e orvalho.
Ainda está escuro no mato

E eu sei que isso é um sonho,
Colho estrelas e algo me diz que elas são feitas de gás
Então sou mulher luz-balão.

As luzes me elevam e ainda há lama em meus pés.
Estrelas são feitas de gás
Hilariante?

Porque tenho vontade de rir.
Ou seria o vento noturno que faz dançar meu cabelo
E os vagalumes?