Hai-kai, Mario Quintana

"Rosa suntuosa e simples,
como podes estar tão vestida
e ao mesmo tempo inteiramente nua?"

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Agnose

Desço os degraus com cuidado.
Todas as fibras musculares do meu corpo tremem, fora de controle.

Que espécie de poder é esse que você exerce sobre mim?
Há as explicações poéticas, as explicações científicas,
Mas estou farta de explicações e de porquês.

Tremo PONTO Meu estômago se agita PONTO Minha garganta aperta PONTO FINAL

E, no meio dessa loucura de sensações,
Preciso me lembrar de como funcionam minhas pernas.

E, no meio disso tudo, preciso manter a discrição,
“Quero ser prudente e sempre ser correta”.

Meus joelhos lutam contra a minha firme decisão de manter a compostura,
Meu corpo todo quer saltar os degraus, gritar, cantar, rir,

Sem nenhuma explicação. Nenhuminha.

sábado, 15 de outubro de 2011

Dia de neblina

Abro as mãos e contemplo o céu, que, para ser poético, teria de ser azul.
Mas o céu hoje está branco, opressor.
O céu desceu em nuvens, tomando a varanda de meu apartamento.

A rosa branca literal agradece a umidade,
Já que suas folhas amareleceram com o calor de ontem.
Eu, ao contrário, estou com preguiça de trocar o short por uma calça

E me contento em ficar arrepiada e com os pés gelados.
Minhas unhas adquirem a pouco saudável cor lilás e eu não ligo.

Dias de displicência, em que alterno tédio, azia e descontentamento.
Ouço jazz, clássicos e folk na esperança de me tornar um pouco mais interessada.
Na esperança de achar graça do que passa diante de meus olhos.

Mas não acho graça na enorme amplitude térmica de ontem para hoje,
Não acho graça no Dário Argento, não acho graça na Beleza Americana,
Não acho graça na sua foto nova, não acho graça na minha foto engraçadinha.

Se você me tirasse para dançar, eu bem que aceitava.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Acidez

Do que não gosto, nos dias de azia e angústia,
De pensamentos híbridos, de desejos confusos,
É do lixo nas calçadas e das olheiras roxas sob meus olhos.

Não gosto das brincadeiras que faz meu coração,
Do seu rosto insistente na tela do computador,
Do seu desconhecimento, do seu descaso, pelos meus desejos tão meus.

Nesses dias, não gosto do meu gostar de você.
Nesses dias, vem um travo amargo, uma engolida em seco.

Como a Famélica, não gosto das regras humanas,
Dos jogos que “tenho” que jogar.

Nesses dias, não me importo com as aulas, não me importo com o mundo.
Nesses dias, não faço planos para o futuro,
Não leio e não escrevo textos para a faculdade.

Nesses dias, quando vejo sua foto aparecer e desaparecer da minha lista,
Quando fico em dúvida se falo ou não com você,
Maldigo os momentos em que aparece sem sumir e some sem aparecer.

Maldigo minhas projeções, meus desejos.
E fecho a quinta posição com força, com raiva.
Porque nem mesmo minhas pernas, nesses dias, eu controlo direito.

sábado, 8 de outubro de 2011

Modorra

O arrepio que tomou conta de minha perna direita
E sobe por meu tronco, eriçando meus pelos com sua passagem,
A ardência que não abandona meus olhos desde cedo,
Meus cabelos sujos, meu pijama improvisado,
Marcas do tédio.

A revista de palavras cruzadas quase completa,
O livro mil vezes aberto,
O arquivo para ser lido,
Os convites pendentes, irrecusáveis, desdenhados,
Marcas do tédio.

A cama bagunçada, que me deixa um canto para acomodar a mim e ao netbook,
Que não arrumo, que não registro.
Peças de roupa jogadas aos cantos, a estante para arrumar...
Marcas do descaso.

Tudo hoje me provoca displicência,
Me causa indiferença,
Arranha o limiar da irritação.
Arranha a aranha, o jarro...

O poema jogado, sem estilo, sem cuidado.
Os lábios mordidos, feridos, despelando.

Foi um dia de sol lindo hoje,
Com brisa e pássaros cantando aqui perto.
Um dia em que tudo me convidava a sair.
E eu, mimada, entediada, recusei. Recuso tudo hoje.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Sobre o sol inclemente e tropical

Me faltam nuvens e palavras,
me faltam arroubos de criatividade.
Sinto falta da chuva forte e intensa.

Sinto falta dos trovões que ocultam os soluços.
O sol forte me causa dores de cabeça,
suores desnecessários.

(Tenho essa mania de achar que a produção
dos meus fluidos corporais – sejam lágrimas ou suores –
deve se ater ao essencial, mais do que isso é patético)

2010

Nada a ver com meu momento atual de vida (as paixões...), mas decidi postar graças a um papo com uma amiga sobre meu problema com chorar em público e/ou fazer outras coisas que eu considere vergonhoso. Acho que tem muita gente que tem esse tipo de problema, né?

Clausura

O campo ao longe parecia verde
E fui sonhando-o.
Pensei em quão macia seria sua relva,
Quão mornos estariam os torrões de terra.

Sonhei com o cheiro de suas ervas
E o som de seus insetos.
Ansiei, esperei, me retorci,
Choramingando por dentro de frêmito apaixonado.

Lutei contra minha torre, atirei objetos ao chão.
Ainda não posso ir, ainda não...

E, salivando de desejo (da corrida, do vento, do sol),
Passei dias em minha janela,
Tentando seduzir o tempo para que passasse mais depressa.

Mas, observando o campo, percebi racionalmente seus defeitos
E vieram as dúvidas. Será que é tão bom?
E, mesmo que seja tão bom, será que há lugar para mim?

Será que há querer para mim?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Emboscada

Meus braços e ventre sentem o formigamento da ausência do corpo que desejo.
A extensa criatividade que possuo produz realidades alternativas ao fato concreto.

Deposito pratos de leite e migalhas de pão na trilha que espero ser seguida
E aguardo... Aguardo sob a chuva morna que encharca meus cabelos.

Chuva que tamborila nos objetos no mesmo ritmo da minha pulsação acelerada.
Trêmula, aguardo... Aguardo o desfecho da armadilha cuidadosamente tramada.

Trêmula, questionando minhas razões e meu papel. Sou caça ou caçadora?
Quem está na liça? O jogo é concreto ou estou delirando sozinha?

Meus braços e ventre formigam, ignorando minhas dúvidas,
Estimulados por meus anseios. E, trêmula, aguardo a chegada dos trovões.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Apocalipse

"Ouvimos quando as primeiras fizeram contato com o chão.
Corremos às janelas e todos tivemos medo.
Que pecado tão terrível houvéramos cometido

Para que os céus chorassem fogo sobre nós?
Nos entreolhamos, esperando que alguém falasse.
Nossa cassandra chorava a um canto,

Agora queríamos tê-la escutado.
Logo as primeiras casas foram atingidas.
Quantas crianças e suas mães choravam,

Queimando naquele inferno?
Não tínhamos ideia do que seria de nós,
Só sabíamos que era o fim."

2009


Como podem ver, esse é velhinho, mas eu o (re)descobri ontem, quando mexia num caderno velho. Gostei dele, apesar de toda essa angústia e dor que eu imprimia nas minhas palavras.
Se alguém não estiver familiarizado com a mitologia grega, é só avisar que eu contextualizo o poema.

Beijos

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sarah (escrito em 2007)

"Quando pequena,
eu costumava crer
que crianças já tinham
sido estrelas.
E que, um dia,
voltariam a sê-lo.

Mais tarde,
cada conquista terrena
era uma fita que amarrava
os raios delas por aqui.

Eu olho para você e
lhe vejo dar tchau.

“Eu quero ela de volta.”
“Eu não quero que ela vá
[embora.”

A todo instante elas vão
[embora.
Vão embora porque mudam
[e não são mais o que eram.
(Isso é desatar os laços.)
Só quem não muda são os que
[morrem.

E esses
vão embora
[para sempre.

Você está desatando seus laços
Você está dando tchau
Você está voltando a ser estrela
Você está indo embora.

Se suas fitas não fossem
metafóricas,
elas seriam azuis.

Da cor do céu
[e dos seus olhos.

Se suas fitas fossem reais,
eu guardava comigo
só a que mais me representasse você
[suas histórias
e usava ela para prender
[meus cabelos."

Eu escrevi esse poema há alguns anos (talvez já possa dizer "muitos" a essa altura do campeonato), talvez, se o tivesse escrito hoje, seu estilo fosse melhor ou o português mais refinado, vai saber. A questão é que ele foi feito a partir de um sentimento puro e honesto que, no momento, não saberia traduzir tão bem quanto há quatro anos consegui. É isso. Vou ver se acho uma fita azul para usar nos cabelos esses dias. Azul.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Estocolmo

"Conheço muito pouco da Cidade Maravilhosa que tanto se fala,
A cidade que lateja sob meus pés
Tem seus tendões esgarçados e é um anúncio de infarto.

Dos odores que sei, a maioria vem de gente, bichos e carros,
Poucos perfumes e cores aquareláveis.

Nesses dias nublados, onde prédios e céu se fundem,
Emerge um ouroboros gigantesco,
Com pedaços seus vomitados por todos os cantos.

Dessa cidade cada vez mais hostil,
Conheço muito de seus feitiços e nada de seus encantos.

Mas, mesmo no Centro mais imundo,
Abandoná-la está fora de cogitação."



Centésimo post, minha gente! Saibam, leitores silenciosos (que até comentam quando posto no facebook, mas no blog que é bom, necas), que eu nunca achei que esse blog fosse durar tanto, principalmente porque eu o sinto quase como uma experiência esquizóide, como se estivesse em um quarto falando com espelhos... De qualquer forma, a poesia, como o Rio de Janeiro, está tão entranhada em mim que abandoná-la também está fora de cogitação.